Em que estado nos encontramos?

           * Com a palavra Tim Rescala, dos mais aguerridos colegas. Presença indispensável em nossas reivindicações.

Como bem disse o nosso querido Segio Ricardo em seu texto inaugural do G.R.I.T.A., nós, músicos, temos questões urgentes e seríssimas a resolver para o nosso próprio bem. E se não as resolvermos  o mais rápido possível, será para o nosso próprio mal. Dentre elas, sem dúvida alguma, há duas que se destacam. Referem-se a duas entidades que batem a nossa porta faz tempo, logo depois de criadas, em anos nebulosos, em plena ditadura militar: OMB e ECAD.

Em comum a essas duas instituicões, se é que podemos chamá-las assim, está o fato de terem sido criadas, a pedido nosso, ou seja, da classe musical, feito ao estado brasileiro, um civil, outro militar. Imperava no direito autoral uma desordem geral e no exercício da  profissão uma falta total de garantias, de ordenamento, enfim, de profissionalismo.

Pediu-se então a interferência do estado, pois viu-se logo que só o estado, fosse ele militar ou civil, poderia fazer algo para arrumar a casa. Aquilo que foi sonho para bravos militantes, desbravadores, abnegados, tornou-se realidade. Começou-se realmente a arrumar a casa e por um bom tempo a classe pode usufruir do que foi conseguido com essa luta.

Passados alguns poucos anos, porém, o caldo começou a entornar, o ritmo começou a atravessar, como muita coisa, ou quase tudo, que acontece de bom  na terra brasilis. Os oportunistas de plantão começaram a aparecer, munidos de frases mágicas e soluções idem, tais como: “ deixa comigo”, “ eu faço isso pra você”, “ artistas não tem que se meter com isso”, e por aí vai. Ou foi.

Surgiram então, como sempre surgem, os facilitadores. Aqueles que poupam os artistas da desagradável tarefa de lidar com a burocracia, de fazer contas, de entender leis, de destrinchar contratos, enfim, aquela coisa chata da qual ninguém quer saber, mas da qual todos nós dependemos. E esses facilitadores,  que viriam a se tornar dificultadores de quase tudo, pouco tempo depois, nos poupavam também de reuniões chatas, de assembleias intermináveis, do lado “ sacal” da vida. Logo a nossa, a dos artistas, tão cheia de glamour.

Mas eis que os facilitadores, de tanto nos pouparem de coisas  enfadonhas e massantes, nos pouparam também de pensar. Claro! Pensar pra quê? Esse negócio de pensar é igual a diteito autoral, dá cancer. Vamos deixar que o nosso lider, o nosso facilitador, o nosso cara que consegue ler as letras miúdas dos contratos, faça isso por nós. Basta a gente assinar embaixo, assim como se faz com a maioria dos manifestos. Afinal, assinar manifestos sempre foi bacaninha.

E deu no que deu. Nos ferramos de verde e amarelo. Passados quase quarenta anos, e o que temos ? Uma ordem que é uma desordem e um gestão coletiva que está mais para indigestão coletiva. Culpa de quem? De nós mesmos, principalmente. Não me venham culpar os facilitadores, pois estes serão sempre o que são, oportunistas por natureza. Sempre haverá alguém para reclamar a autoria e alguma obra em domínio público. Sempre haverá um espertalhão. É a tal história do “ samba é que nem passarinho, é de quem pegar primeiro”.

Curioso, instrutivo e lamentável é perceber, passados quarenta anos, que muitos dos subversivos de outrora, são os administradores do sistema que hoje está aí, a nos vilipendiar. Não me refiro aqui à geração que produziu o movimento da música de protesto, anterior aos festivais. Este a ditadura conseguiu calar. Me refiro à geração seguinte. Muitos dos que antes eram vozes descontentes, agora cantam, afinadinhos pelo “Pro tolos”, no coral dos contentes. Contentes não, contentíssimos. Afinal, agora com a conta bancária dormindo em berço esplêndido , não há motivos para mudar nada. Mudar? De jeito nenhum. Para quê ? Logo agora que são considerados, admirados, cultuados? Logo agora que estão com a faca e o queiio na mão? Justo aquele queijo, que tanto lutamos para abocanhar?  O inferno são os outros, disseram. Assim pensam eles, os poetas de outrora. Mas sempre há, felizmente, honrosas exceções.

Enfim, não cabe a nós apenas a lamúria, a ladainha dos derrotados. Cabe a nós gritar e  agir. Mas não simplesmente espernear. Gritar, agir, com conhecimento de causa, e com estratégia de ação.

Não foi à toa que no passado nos queixamos ao governo. O governo, ou melhor, o estado, felizmente, é outro. Não é um estado de exceção, é um estado de direito. Não é o melhor dos estados, mas é o que temos. E dele, nós, cidadãos, temos o direito e o dever de cobrar. Das empresas privadas só temos a lamentar. Vamos corrigir os rumos. O estado deve tomar para si os seus deveres e nós, cidadãos, os nosso direitos. E vice-versa.

É mais que hora de exigirmos do estado que faça sua parte, que regule e fiscalize, de verdade,  não para inglês ver, a gestão coletiva de direitos autorais.

É mais do que hora de exigirmos que a lei do músico seja revista e que o papel da OMB seja repensado. É o que temos que fazer para mudar o estado das coisas. Se não fizermos, continuaremos em outro estado : de penúria.

Tim Rescala

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2 respostas em “Em que estado nos encontramos?

  1. Salve Tim, Acho que você aponta para dois pilares fundamentais de nossa realidade enquanto artistias, sobretudo como trabalhadores. É preciso que se incremente o debate com a participação dos músicos. A questão recorrente é: porque tão poucos músicos, mas muito poucos mesmo, desejam se envolver e lutar por mudanças, quando somos dezenas de milhares no país e que sofremos todos das mesmas contradições?

  2. É o seguinte TIM, CONCORDO, EM GÊNERO, NÚMERO E GRAU, PORÉM, AINDA TEM MAIS UM AGRAVANTE, OS DOS DONOS DA CULTURA POPULAR BRASILEIRA, E QUE NÃO SÃO ARTISTAS, OS CORONEIS, OS MAUS GESTORES, OS OPORTUNISTAS E SE DIZEM ENTENDIDOS DA CULTURA POPULAR PELO BRASIL AFORA, QUER SEJA NA PARAIBA, OU EM OUTRO ESTADO, QUE TAMBÉM NOS POUPAM DE FAZERMOS OS PROJETOS, QUE NÃO SÃO FÁCEIS, E AÍ ENTRAM OS ESPERTALHÕES, OS APROVEITADORES, METENDO A MÃO NO BOLSO, PRINCIPALMENTE DOS SOFRIDOS MESTRES DA CULTURA POPULAR BRASILEIRA, TODO MUNDO SABE DISSO, MAS SE ALGUÉM PROTESTAR…FICA DE FORA DA PANELINHA DOS EVENTOS, DOS EDITAIS, ETC…ELLES, OS DONOS, É QUEM MANDAM…FAZEM DO PODER PÚBLICO, UM CLUBE PRIVADO…É MEUS AMIGOS NÃO ESTÁ FÁCIL NÃO….QUE TEMPOS HEIN!!! ESCREVO ISSO PORQUÊ O “CENTRO DE TRADIÇÕES DO CAVALO MARINHO DA PARAIBA” , DO MESTRE GASOSA, QUE TEM VÁRIOS PRÊMIOS A NÍVEL NACIONAL E INTERNACIONAL, E QUE RECENTEMENTE RECEBEU O SELO CULTURA VIVA DO MINC E CENPEC, EDIÇÃO 2010, É UM DOS GRUPOS INFORMAIS, QUE A COMUNIDADE SOFRE BASTANTE, COM ALTO RISCO DE EXCLUSÃO, DE VULNERABILIDADE E MARGINALIZAÇÃO, NÃO TENDO A VALORIZAÇÃO QUE MERECE, NEM O RESPEITO E NEM O RECONHECIMENTO DE FATO…UMA FARSA ABSUUUUURDA!!!
    G.R.I.T.A
    NÉLIO TORRES

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