APARANDO ARESTAS

Claudio Guimarães

Querido Sergio,

A maioria dos colegas que você convocou, são amigos ou conhecidos de longa data, uns mais chegados outros não.
Fui convocado para participar e contribuir para um Blog chamado “Grita”, que seria um espaço democrático, plural, aonde nós conviveríamos com textos até mesmo antagônicos, mas aonde as idéias, mesmo diversas, trouxessem alguma luz através da prática democrática.
Por estar listado todos os colaboradores, em princípio, não publicaríamos ou emitiríamos qualquer opinião e pontos de vista que não passassem pela aprovação e/ou consentimento de todos.
Infelizmente não foi isso que aconteceu, e não me causou surprêsa alguma, o Chico pedir para retirar seu nome da lista, após matéria que saiu no Estadão, já que a própria convocação para a criação da “Grita”, pressupunha uma ação imediata diante da política do MinC, e de onde se aproveitam todos os setores que objetivamente ou de forma oportunista, criticam ou usam de violência como já vimos ocorrer duas vezes este ano em São Paulo.
Para mim não faz sentido algum, principalmente agora que fui nomeado coordenador no Cemus da Funarte, chancelar neste blog qualquer tipo de crítica ou ataque à ministra Ana de Hollanda, com a qual luto desde 2005, além de apoiar a atual gestão na cultura.
Todas as grandes questões e conquistas continuam a ser perseguidas mas através de muito trabalho, responsabilidade e clareza.
O pensamento crítico deste blog é benvindo desde que usado com responsabilidade, com o objetivo de construir e melhorar nossas políticas e diretrizes para uma ação mais objetiva no sentido de melhorar nosso universo cultural e profissional.

Um grande abraço do amigo,

Claudio Guimarães

                                                     ***

Querido Claudio

Em nenhum momento o Grita se manifestou contra a atuação de Ana de Hollanda, nem é ela o foco de nossa controvérsia, e sim o sistema de defesa de nossos direitos. Não foi por nada desabonador à sua pessoa  , nem mesmo na matéria do Estadão, o motivo da retirada do nome do Chico Buarque encabeçando a lista de adesões. Seus motivos foram entendidos e respeitados.

O caráter de nossa luta não busca apontar o dedo para as pessoas, posto que a profundidade de nosso problema transcende o tempo da gestão de indivíduos, que por mais bem intencionados, são, invariavelmente, jogados em arapucas difíceis de serem vencidas. No documento inicial do GRITA declarei que para atingirmos o objetivo básico de nossa UNIÃO, era preciso antes de qualquer coisa, acabarmos com o vício dos “rachas” entre nós, ranço corrosivo e inferior, para se atingir os grandes propósitos. Tenho alertado aos colaboradores que evitem tal comportamento, não só em relação à ministra Ana de Hollanda, como a qualquer outra pessoa vinculada aos problemas. A mudança que pleiteamos não é de nomes, mas do sistema a ser modificado. A vassoura terá que  varrer os problemas, aproveitando que estamos numa democracia, chefiada por quem escolhemos para delegar poderes às pessoas que confia, e não é  papel do GRITA interferir nisso. Ao contrário, queremos manter o melhor clima de diálogo com o governo, e procurar atrela-lo à nossa reivindicação,  pela responsabilidade de ambos os lados em não estabelecer mais uma vez um embate contra a cultura, em respeito a um bem emanante da alma de nosso povo, mais importante que qualquer picuinha. A voz do GRITA ja ecoa nos corredores do planalto e a observar pelo desempenho do relator da CPI e atuação do Ministério da Justiça e o decreto do Supremo Tribunal Federal, voltados à defesa de nossa causa, ja se pode vislumbrar o desdobramento positivo da ação do governo atrelando-se aos anseios de nossa categoria.

Quanto ao papo inicial sobre a consulta de um grupo sobre a concordância dos textos do blog, não encontrei ninguém dentre a nossa velha turma que se prontificasse a participar, a não ser Ana Terra e você, que por razões pessoais de saude, pediu para ser poupado. Lembra-se?

Fique tranqüilo, caro amigo Claudio, e todos aqueles colegas predispostos a comungar com suas ponderações, que o GRITA nos pertence a todos. Não é simplesmente um blog com espírito de clubinho. É muito mais abrangente, e não pretende ser só da música. Suas portas estão abertas para o debate. Um texto seu sempre será bem recebido, como os demais. A polêmica é de sua natureza, mas não seu objetivo. A ação ja está dando resultados auspiciosos, embora ainda sediado no Vidigal, de aspecto tosco, sem nenhuma infra-estrutura a não ser a contibuição gratuita e democrática de seus colaboradores. Seja um deles e deixemos as mumunhas pra lá. Participe, meu irmão. O lance é transparente.

Um abraço
Sergio Ricardo.

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2 respostas em “APARANDO ARESTAS

  1. A nossa música tem quadrís fartos e uma cintura bastante fina e, mesmo longe dos holofotes, ela manteve uma grafia rigorosamente exata, do tamanho da nossa invenção. Mário de Andrade sentenciou com eficácia.
    ” A música popular brasileira é a mais completa, mais totalmente nacional, mais forte criação da nossa raça até agora”.
    Naturalmente Mário de Andrade não emoldurou a sua fala referindo-se à doutrinas, aos empresários e, menos ainda, à indústria. Essas lições do grande guru trazem na riqueza de seus detalhes algo com valor normativo que precisaremos muito daqui por diante. Todos os canais merecem incontestável respeito. Todos, por mais que tenhamos críticas, merecem o aplauso naquilo que produziram de importância para o país. Há, no entanto, elementos que são, como disse o título de Sergio Ricardo, arestas e que nos faz de forma natural críticos a determinadas questões, sobretudo quando entendemos a música do Brasil não a partir da obra isolada, mas como um fenômeno fundamental que inventamos, dia após dia. Neste exato momento estamos vivendo uma mistura de fantasmas e fantasias, e os conflitos ainda nem apareceram. Ocorre que houve uma acomodação que hoje está sendo veementemente discutida, e nisto não há nenhum desastre. O que era tradicionalmente uma unanimidade, hoje não se pode afirmar o mesmo. A música hoje corresponde aos novos movimentos de difusão. E talvez seja este o capítulo do principal problema dos desafios que teremos em seguida.

    O compositor brasileiro, dentro de enormes possibilidades, provavelmente se manifestará a partir de então de forma bem mais ampla, gostosa, sem a necessária unanimização, seja ela pela precisão das doutrinas ortodoxas, seja pela virtuosidade das acentuações que a indústria nos forneceu. Expressar os sentidos pelos nossos sons, independe de produzir uma grandiosa obra, dependerá fortemente da criação individual onde as características e as variedades vão sendo julgadas ao livre sabor da sociedade que, graças a Deus, no Brasil, é quase uma obsessão em termos de música.

    Será necessário enfrentarmos esse dilema, pois não existe mais a invenção vista somente pelos olhos da indústria, e isso acaba por registrar que a observação de todos os quadrantes terá que buscar uma outra forma determinante de harmonização. Ninguém imagina simplesmente que as belíssimas frases melódicas, muitas acompanhadas de verdadeiros tesouros poéticos, sejam utilizadas por um Napoleão inustrial que invade o nosso mundo e nos toma de assalto. É audácia demais e, portanto, precisa sempre ser vigiada. Contudo, precisamos transpor a barreira da antiga fórmula industrial, respeitar e até aproveitar a transposição que as novas tecnologias, principalmente na internet estão nos oferecendo, lembrando sempre à exaustão do conjunto de compositores que fazem uma obra, senão magnífica, eficiente e que deve participar do fluxo contemporâneo e mostrar a todos o seu toque rasgado, seus temas e suas versões sobre o mar de variações que possuimos.

    Acho que esta é a base que não podemos nos opor, até porque faz parte da originalidade brasileira cantar, tocar e dançar em rodas. É quase uma patente brasileira esta comunhão que praticamos desde a nossa existência miscigenada. É aí que discordamos e concordamos. São estes elementos simples que generalizaram os processos e os critérios do nosso desenvolvimento musical. Provavelmente não foi assim na Itália, na Alemanha e nem na França. Por isso podemos imaginar a existência de uma música positivamente criativa a partir desse cordão de prata, como disse o grande compositor Camargo Guarnieri. Inevitavelmente todos nós só avançaremos se fizermos concessões. Todos os passos merecem estudo, inteligência e jogo de cintura para que a colheita seja completa e também completa a natureza distribuitiva dos frutos que nossas sementes plantarão. A música tem que ser pensada daqui por diante com total dedicação e o seu assunto não deve fugir, sobretudo da busca inalienável de sua eficiência social. Isto é uma tarefa para instituições privadas, músicos, Estado e sociedade.
    Abraços a todos.

  2. ” No documento inicial do GRITA declarei que para atingirmos o objetivo básico de nossa UNIÃO, era preciso antes de qualquer coisa, acabarmos com o vício dos “rachas” entre nós, ranço corrosivo e inferior, para se atingir os grandes propósitos.”
    Espero realmente que esse objetivo seja alcançado Sergio. Torço por isso. Por um melhor entendimento de suas palavras. Que o GRITA seja um “palco” de todos e não para que alguns poucos possam aparecer. A união se faz necessária já que há muito tempo eu assisto a polêmicas instaladas com o intuito apenas de desagregação. Já passa da hora da nossa classe baixar a bola e começar a enxergar as demandas que vem acontecendo há tanto tempo. Essa democracia que encontramos no GRITA nos trará possibilidades de mostrar aos “cegos” a verdadeira e lamentável realidade. Estamos juntos. Sempre.
    Abraço.
    Ninah Jo

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