A CONFERÊNCIA DOS PÁSSAROS

 

Este texto nos foi enviado por Carlos Henrique, a convite do GRITA, após  observarmos  seus brilhantes comentários feitos aos textos anteriores aqui postados. Eis aí o resultado.

Carlos Henrique Machado Freitas <chorobrasileirocarloshenrique@yahoo.com.br>

Imaginem que felicidade um encontro assim! Seria a própria vinha de luz, onde todos os músicos pudessem de alguma forma contribuir com suas apólices, seus diplomas feitos pelo destino de sua importante música. Estaríamos diante de infinitas carreiras e falaríamos, sobretudo, da primeira sílaba dos nossos namoros com os sons e não haveria ninguém que fosse menos notável, grande e ilustre. Seria mesmo um prêmio para a nossa vida de músico que, em certas horas, é uma enorme loteria. Ouviríamos de cada um de boca pronta, como porta-vozes a sua história que, ao longo da vida, colocaram seus extensos bigodes como avalistas do ardor e da exuberância de sua paixão pela música. Veríamos também no momento de falarmos de forma prática, social dos percalços de quem não pôde guardar sequer um pão para a velhice. Não faltariam reflexos que emanassem todo o espírito que é da natureza de um corpo com tantas madrugadas, com tantos exercícios corporais e com tantas idéias próprias. Seria francamente uma redenção à traição da nossa memória.

Os olhos da platéia brilhariam observando cada passeio contado e cada parada descompassada como condição fundamental para que tivéssemos uma estatística em meio a uma multidão de pássaros que, dotados simplesmente da paixão pela música, manipulam os sons da nossa terra e os devolvem à natureza como remédio poético e clássico de uma fórmula consagrada chamada música do Brasil.

No entanto, para que tudo isso aconteça entre nós, mesmo à distância é preciso que tenhamos uma preparação total em que o corpo e a alma devem estar prontos e sensíveis a tudo que vibra e desponta com dificuldade para, então, buscarmos através de uma série de hábitos uma língua comum que não signifique ruptura de grupos nem de escalas.

Estabelecido isto, chamaríamos a eterna questão dos direitos dos autores a uma condição especial em que a ferramenta da criação fosse a finalidade dos objetivos da música como instrumento de nossos sentimentos e não da moral corrente que só pune tantos músicos quanto a sociedade. Compreendido este importante papel, dividiríamos o diálogo em planos adequados para que o processo do debate fosse efetivamente uma troca de questões para tratarmos de ações simples e encontrarmos em nossa própria cultura a vestimenta que cobrisse as necessidades financeiras que colocam a velha condição de desamparo do músico em estado de permanente penúria.  Entretanto, no furor de tamanha indignação imediatamente teríamos uma resistência para que a militância não caísse num sentimento de anos de atraso, pois, sem perceber seríamos completamente controlados por um sentimento de rinha quando recusaríamos a escutar a soberana voz do sentimento comum. E, sem esta estrutura que facilitaria o nosso entendimento, o espetáculo do fracasso decidiria seu roteiro logo na primeira e melodiosa fala.

Contudo, para que demonstremos uma análise viva e original, não podemos adornar o tonel de embriaguez que o nada romântico Ecad tem imposto à vida dos músicos como se fosse uma fórmula consagrada. Ao contrário, a exemplo dos brocardos jurídicos podemos dar ao Ecad a sentença de “uma cabeça de medusa”, tal o regime de sua grande conveniência. Todos nós que fazemos parte dessa crônica, sonhamos em interrogar diretamente o Ecad para que não sentíssemos a atmosfera de solidão que mescla sentimentos, boatos, calúnias que acabam sendo informações contrabandeadas de leis afeitas por observações apressadas e individuais ao sabor de uma simples, mas perigosa vingança.

Temos que entender que direito não é esmola e não podemos, numa espécie de tênia moral, ficarmos calados insidiosos para atender ao prazer íntimo de nossa divindade quando somos agraciados pela divina fórmula dos poucos bem-aventurados.

Devemos observar que o Ecad atravessou e muito os princípios do direito do compositor, pois de forma distraída não percebemos que, em nome do nosso direito, o Ecad se transformou num proprietário dos sons do Brasil. E isso acabou por assanhar tanto a sua ganância que, mesmo com o inventário, já carimbado, de falência da indústria fonográfica, o Ecad diante da população brasileira recolhe direitos como donativos, batendo recordes de arrecadação tal o domínio de sua dura e intensa prática de emboscada. Sim, porque o que está aí, bastando de nós uma pequena recapitulação das injúrias que já fazem orelha dos cadernos de anotações que denunciam um processo remoso de quem, ao escutar um som, cria imediatamente uma complicada tabela para arranjar uma sentença, coloca toda a sociedade de mãos na cabeça.

Eu deveria estar aqui advertindo sobre outras questões que gemem na luta diária de um compositor para receber seus direitos arrecadados pelo Ecad. Falar de uma multidão de músicos que nunca conseguiu extrair do Ecad um mísero prato de mingau por razões aceitas apenas pelos duros lapsos que se transformaram em manipulação e que atacam as pernas, o coração e, sobretudo, o pescoço dos criadores. Mas a situação é mais complicada, e ela definitivamente tem produzido o ódio e a aversão da sociedade porque a pretexto de passar o chapéu em todos os lugares onde de alguma forma alguém lança mão de uma moringa para extrair um som, o Ecad finca seus dentes fermentados por uma janela de “lei” que me recuso a aceitar qualquer outro conceito que não seja de um vulto leviano e sistematizado que produz em nós uma ignorância para que ele possa empregar uma conduta de grilagem e de cangaço típicos dos latifundiários, autores das obras mais horrorosas que assolam a nossa gente.

Temos que nos afastar da falsificação de uma identidade forjada por uma prática de repressão que em nada obedece aos direitos de quem emprestou sua genialidade à cultura brasileira. Precisamos escutar os conselhos do nosso dever de brasileiros antes de exigir uma prática de incontestável abuso de poder para valorizar a grandeza de nossa música. Esse aparente defensor do patrimônio nacional, o Ecad, falsifica a entidade brasileira, tanto que seus critérios acabaram por delinear um julgamento do Ministério da Justiça que afirma que o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição comete práticas de cartel. Não precisou de muitos documentos para o Senado, na CPI, empregar radicalmente o mesmo conceito à forma permanente de constituir uma lei isolada, exclusivista e unilateral criada pelo Ecad que, ao contrário do que imaginamos, prejudica e muito o caráter legítimo de nossas reivindicações que são necessariamente comuns a todos os músicos.

Portanto, é nosso dever nos interessarmos por estas questões e, acima de tudo repudiarmos o preconceito útil para quem dita o ritmo desenvolvido por este Escritório que todos conhecemos que não defende a música pelo direito do autor. O que ele criou espertalhonamente foi uma deformação para adaptação de um fenômeno falso em que o falsificador manipula de forma desrespeitosa a própria justiça em nome dos criadores brasileiros.

A cultura no Brasil hoje sofre tantos processos de deformação por agentes corporativos infiltrados em seu meio, que todas as vezes em que nos manifestamos juntos e sempre com a parte central voltada aos interesses das corporações, não percebemos que, em nome da pobreza de muitos, estamos alargando a possibilidade de nossas reuniões serem classificadas pela sociedade como “o encontro dos bárbaros”.

Para não dizer que não falei das flores, hoje, dia dos pais, rendo a minha homenagem ao meu professor de música, meu pai, não um professor formal, pois não tenho esta formação, mas um professor de ética e estética musical que me indicou, mesmo com sua precária formação educacional, por exemplo, uma pesquisa sobre a vida e obra do gênio Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto.

Meu pai, hoje com 87 anos, veio para Volta Redonda guiado pelo sonho de construir um país justo, ético e efetivamente desenvolvido para seus filhos, netos e bisnetos. Ajudou a erguer a CSN e nela trabalhou durante 35 anos sem uma falta e nenhum único minuto de atraso. Pelo seu departamento de Patrimônio vigiava todo e qualquer parafuso para que ninguém pudesse se apropriar do que pertencia a toda a sociedade brasileira. Até hoje ele não consegue se resignar diante de todo o processo de privatização da CSN que golpeou seus sonhos e de muitos brasileiros quando, numa jogada de mestre, um único empresário ficou com a posse de um patrimônio construído por milhares de arigós, como ele, para milhões de brasileiros de muitas gerações.

Mas, voltando ao Garoto, depois de dois anos de pesquisas e arranjos, entre 2000 e 2002, tivemos que engavetar o projeto, pois os direitos da grande maioria das músicas estavam sob o domínio não dos herdeiros de Garoto, mas de editoras, e o valor que nos cobraram por faixa não tem graça, era simplesmente oito vezes mais caro do que todo o custo da produção da gravação do CD. A nós sobrou a linha mestra que deu espírito à nossa criação como compositores a partir da lição de um predestinado gênio que morreu precocemente aos 39 anos de tanto trabalhar e não teve a devida proteção de nenhuma entidade privada ou estatal.

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4 respostas em “A CONFERÊNCIA DOS PÁSSAROS

    • Papagaio! Quanta honestidade! Você acaba de exibir sua grande inteligência e sensibilidade, dignas de um censor profundamente competente dos anos sessenta, com seu comentário. Parabens! Como nosso objetivo não é a competição, fique com o troféu, que com toda nossa admiração, lhe devolvemos.
      Sergio Ricardo

  1. Achei extraordinária a participação do leitor, reagindo exemplarmente aos artigos que vêm dando contornos ao G.R.I.T.A!, que vem, artigo a artigo, desenhando a sua história e função social: revelar, comunicar, deixar às claras a sociologia da classe artística.
    Previsívelmente à ação, produz-se a reação, onde essa reação, por si mesma, revela pela adjetivação infértil a representação precisa de um passado canhestro e individualista que muitos de nós, artistas, ainda temos para com os nossos semelhantes, principalmente os músicos, de quem falamos aqui com notória propriedade. Será preciso lidar com esse tipo de comportamento, integrado desde há muito em nosso meio.
    É exatamente nesse sentido que a participação do leitor vem a calhar: ela iconiza magníficamente o que vemos revelando, ela representa com clareza a velha resistência às mudanças em curso, e que são irreversíveis.
    Parabéns ao Sérgio Ricardo pela criação deste espaço democrático, vivo, ativo e à frente de um passado incapaz de dar contornos à dinâmica fecunda da vida de artista.

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