O G.R.I.T.A. NA AÇÃO

Discurso proferido por Sergio Ricardo no plenário da Câmara em Brasilia, em 17 de agosto de 2.011, encerrando o ato pela aprovação da pauta da Frente Parlamentar da Cultura, apresentado por Jandira Feghali.

Venho falar em nome do GRITA – Grupo de Resistência às Irregularidades no Terreno das Artes.

Meu recado, como sobrevivente no cenário cultural do pais, me obriga a usar esta oportunidade para a reflexão sobre os meandros do desconforto  entre o Governo e a sociedade cultural, que se arrasta desde os tristes tempos da  ditadura que, ao apontar seus canhões sobre o livre pensamento, castrou a sua função transformadora, propiciando nas artes, com raras e brilhantes exceções, a invasão da superficialidade, para alegria dos descomprometidos com a  alma de nosso povo.

A alma de um  povo  se manifesta através das artes, que dão forma ao conteúdo de seu espírito, demonstrando  sua grandeza, seu sentimento, revelando o caráter e o retrato de uma nação. Um corpo doente pode ser levado à cura por uma alma sadia. Mas uma alma doente, só leva o corpo aos descaminhos.  Esmagada pela repressão, nossa alma ainda permanece doente, mas felizmente  se debate,  prestes à sua pulverização, se continuarmos a retardar ou impedir sua cura.

Um dado elementar me leva à  constatação de que para seu imediato restabelecimento,  alma e governo não teriam porque ser mais inimigos entre si, ha muito tempo, já que a censura ao livre pensamento não existe mais, e o vício beligerante entre os dois lados é no mínimo, surrealista.  Como no tempo dos grandes estadistas de nossa história, deveríamos reatar a coerência democrática de um diálogo, transparente entre ambos,  com métodos e leis condizentes com suas necessidades.

Manifestações de descontentamento  se sucedem de forma crescente pelo país, numa grita  exasperada, contra as respostas quase sempre discordantes do governo,  vestidos de um ranço beligerante de ultrapassados posicionamentos, que não nos levam a lugar algum, a não ser para enchermos o bolso dos oportunistas.  Mas A GRITA verdadeira deveria ser assumida pelos  dois lados,  numa harmonia distante dos interesses daqueles que se aproveitam do caos, decorrente de nossos desencontros,  sugando, por um lado o  sangue dos artistas, e por outro, fomentando o descuido de nossos governantes. Muitos ousam falar em nome de nossa categoria, utilizando-se da ingenuidade jurídica ou empresarial da esmagadora maioria dos artistas, aparentemente alienados ou acomodados, para jogar, ardilosamente, governo e cultura um contra o outro.  Será que os projetos da produção cultural, que vão para as gavetas, são  verdadeiramente inferiores aos que passam pelos olhos dos patrocinadores que determinam o que deva ser ou não ser o conteúdo e a mensagem de nossos criadores? Porque são sempre os mesmos a ganhar nessa loteria? Será que fora desses pequenos grupos, na sua maior parte produtores de obras  sem a menor importância, não exista dentre os recusados, coisa melhor a ser mostrada? Há algo errado neste processo. Porquê não se tenta descobrir outra forma mais justa? Quanta coisa genial e de importância cultural está sendo jogada no lixo, impedindo a liberdade de manifestação daqueles que discordam das exigências dos mercadores da arte?

O artista, obrigado a  ocupar-se com sua obra, forçado a usar como instrumento, a abstração,  levita,  flutuando em seu casulo, tendo que confiar nos defensores de seus direitos, e esmolar um espaço para mostrar seu trabalho, voltado com sua parcela para a soma do engrandecimento espiritual de nossa nação.  Porem, só poucos, comprometidos ou bem sucedidos vão se repetindo infinitamente, estancando a onda da transformação como uma estática  geleira. Mas e a maioria esmagadora? dentre eles os excluídos, os incompreendidos, os destoantes das prisões na cadeia produtiva do mercado, os inovadores, os gênios que andam pipocando na nova geração, sem condições de trabalho, peregrinos das lapas da vida, como ficam?

A alma brasileira tem que abrir mão de sua essência, e despersonalizar-se com a importação de outras culturas, para atender à mediocridade que a escraviza? Num pais como o nosso? que tem cultura a dar com pau?

E nossos direitos autorais? Está mais do que provado, pela renitente denuncia de sua irregularidade entre cartéis e coitinhos, que uma providência imediata seja tomada. Não adianta taparmos mais o sol com a peneira. O roubo está à mostra. Escancarado. Uma medida drástica tem que ser tomada já. Sem tantos entraves burocráticos que só permitem o tempo necessário para nossos algozes se recomporem, a conquistar novos atalhos nesse labirinto fétido que aí está.

Ja soam vozes afinadas com a nossa, dentro do governo, tateando os fatos,  demonstrando que não estamos falando com as paredes. A prova disso é que estamos aqui. Uma CPI em curso, um decreto do Supremo Tribunal, discussões e propostas do ministério da Justiça, etc., cujas conclusões esperamos que sejam auspiciosas para chegarmos a bom termo.  Ou nos unimos agora, ou teremos que escrever Brasil com zê, pois não falta muito para perdermos totalmente a nossa identidade.   Com certeza, não é o que ambos desejamos.

Cabe frisar, que tanto o governo quanto a cultura necessitam de uma autocrítica, principalmente  para separar em seus celeiros, o joio do trigo. Purifiquemos nosso diálogo sem a presença dos vendilhões de ambos os lados, para alcançarmos a grandeza de um entendimento que venha salvar o destino da alma brasileira. Do contrário, só enfiando o violão no saco, de vez.

Ha exatamente  cinqüenta anos iniciava-se no país um movimento cultural envolvendo o cinema, o teatro, a poesia, a pintura, etc. e  a canção de denúncia. Unidos com o mesmo espírito voltado à salvação de nossas agruras, numa união solidária com as aspirações da alma de nossa gente. Indo buscar sua verdadeira identidade, assumimos  a estética do povo e com o conteúdo de nossas obras artísticas,  influenciamos nossos seguidores, pouquíssimos dos quais permaneceram a resistir durante a ditadura, levantando a bandeira dos que tombaram na batalha contra a repressão, excluídos do processo cultural do país. Tão desprestigiada, nem sequer um brinde se ergue para comemorar o cinqüentenário de um movimento que uniu todas as artes de mãos dadas com o governo, mobilizando a sociedade empenhada em curar o corpo de nosso povo, provocando o mais alto nível de mobilização já alcançado em nossa história. É no mínimo um desprezo à coragem de toda uma geração.  Nunca mais vi nosso povo encher o peito com tanto orgulho de ser brasileiro. Estranho! Nem uma notinha no jornal. Eis aí um exemplo do estado em que se encontra, a cultura brasileira.

Hoje, mais do que antes, temos condições, a exemplo de outros povos do planeta, de superarmos  nossos bloqueios, sem o esmorecimento estéril de nosso dias, se nos empenharmos num Mutirão para curarmos a nossa alma.

Termino evocando uma frase lapidar de Einstein ” A imaginação é mais importante que o Conhecimento “. Estamos fartos do conhecimento de nossos problemas. Adotemos a imaginação para soluciona-los.  Obrigado.

Sergio Ricardo   <http://gritabr.worpress.com/&gt;

“FRENTE PARLAMENTAR DA CULTURA / ATO PELA APROVAÇÃO DA PAUTA”, contou com a presença  dos artistas Roberto Frejat, Fernanda Abreu, Elza Ribeiro,Cristina Saraiva, Dudu Falcão, Carlos Mills, Leoni e Tim Rescala, e mais representantes culturais de vários estados do país, convidados de Jandira Feghali.

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8 respostas em “O G.R.I.T.A. NA AÇÃO

  1. Belas palavras meu caro Sérgio.
    Quando teremos uma ação efetiva?
    Vamugritá aonde?
    Está na hora de organizarmos um show, no mesmo dia, em todas as capitais do país. Que tal?
    Abs
    SM

    • Acho a idéia ótima, Sidney
      Mas ainda não estamos com essa bola toda. O processo é muito mais lento do que se esperava. Só temos verdadeiramente acordados, poucos combatentes, centenas de adeptos, muitos colegas à espreita, e ainda cabreiros, e uma grande parte apática preferindo entregar-se à descrença. Enquanto se espera, partimos para a ação mais direta, buscando sensibilizar o governo a mexer em leis e métodos , enquanto ele tiver, como está demonstrando, interesse em mudanças. Ha um clima de entendimento que não pede clamores de revide. A palavra ainda é a arma mais poderosa, esta sim a ação efetiva, porque vence as guerras sem o sacrifício de vidas. O grito é uma coisa e a grita não é uma soma de gritos. Pode ser silenciosa e muito mais eficiente. Não estamos dispostos a armar um exército de Branca Leone. A quem considerar que o governo seja nosso inimigo, saiba que estamos na linha de frente, em pequeno grupo, lutando por todos, na trincheira do inimigo, onde a batalha é muito mais arriscada . Subestimar esta luta é dar mostras de uma decepcionante fragilidade de carater e uma total ignorância sobre estratégia de transformações.
      Você está conosco desde o começo, Sidney, e já somos amigos virtuais. Aproveitei o ensejo para desabafar no ombro do amigo, algo que anda meio entalado na garganta. Poderia estar lhe dizendo, simplesmente, que sua idéia é empolgante, mas ainda não faz parte do nosso show.
      Beijo na testa.
      Sergio

  2. Que orgulho dividir esse espaço com alguém tão articulado e sábio! Lindas palavras, meu amigo. Vamos continuar mobilizados e mobilizando a classe artística.
    Não deveria haver correntes discordantes entre nós, mas uma grande união que desse conta das causas comuns.
    Parabéns!

  3. É mesmo como disse Leoni, a fluidez de suas ideias, Ricardo, faz uma enorme diferença, mas também aumenta a nossa responsabilidade de uma retomada às lutas mediante o nível que essa espécie de tratado corporativo chegou. Equalizar tudo isso não é tarefa fácil, unificar, fortalecer dentro de um desenvolvimento homogênio onde seriam inseridas as questões regionais com o mesmo peso, é um caminho que deve ser realizado. Porque o crescimento desse mundo corporativo que parece ter vontade própria se adaptou perfeitamente em todos os lugares. Como disse o grande Milton Santos, na verdade essa sempre foi a cobiçada hegemonia dos que só pensam cultura como empresa ou, no mínimo, que cultura é um símbolo financeiro.

    O que mais me deixa mais indignado é que todo o processo representativo criado pelos artistas para atribuir valor à produção e ter o respectivo resultado de todo o seu trabalho se voltou contra eles, praticamente virou uma atividade econômica em decorrência da complexidade de labirinto que foi se aprofundando com essa forma de gestão corporativa. Com isso a questão original foi perdendo conteúdo. O território da cultura foi sendo normatizado contra o artista e nos tornamos uma tribo perdida, fragmentada, sem um território comum que nos desse uma identidade.

    Na verdade o dinheiro que se arrecadou com direitos autorais, leis de incentivo à cultura, OMB, criou muito mais desigualdades e as dependências se aprofundaram, tudo em função de uma reconstrução desse grande arcabouço político e territorial dentro do país que não está a serviço dos artistas, da sociedade, de ninguém. Nosso espaço foi tomado por um conceito institucional de um feudo, pior, o estrangulamento que chega a quase quebrar o nosso pescoço é porque houve uma fusão de vários elementos desencadeados de um mesmo sistema corporativo, assim como a ordem mundial. Isto está no setor privado, nas políticas públicas de cultura onde os ditos “transformadores” jogaram pesadamente em prol de soluções que estruturassem seus poderes.

    A nós resta esta bonita luta proposta por vocês para que possamos, partindo desta realidade, reformularmos a nossa própria ordem que tem uma coisa que eles não têm, o apoio da sociedade. Parabéns por sua força, mas principalmente pelo não conformismo. Você, Leoni e tantos outros estão se transformando numa força multiplicadora.

    Grande abraço.

  4. Devo dizer que, me sinto honrado em poder ter acesso a essas informações ou melhor, formações. Essa postura tomada é fantástica, espero poder contriburi de alguma forma, dentro da minha pequenez. Sabias palavras do Sr Sérgio Ricardo, estamos sendo bem representados. Parabéns

  5. Obrigado Léo. A honra é nossa de contar com sua participação. Basta assinar a adesão abaixo, para que possamos representa-lo. Some-se a nós e traga seus colegas porque precisamos do maior número de adesões para nos sentirmos fortalecidos pela classe. Participe das discussões no forum que inauguraremos dentro de alguns dias, e dê suas sugestões, para junto dos demais deixarmos claras as nossas intenções. Acredite na força de nossa união. Abraço

  6. Sergio Ricardo: mais uma vez: – Obrigado! Estou aqui em Sampa e acabei de ler a íntegra de seu discurso na Câmara. Apoio total e irrestrito de minha parte. Acumulei mais um tantinho após ler seu texto. O bastante para me articular ainda melhor quanto à nossa famigerada situação de artista brasileiro. Meu abraço afetuoso e de admirador.

  7. Pingback: Brazil, meu Brazil estrangeiro… « Flavio Monteiro 73

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