A NOSSA CULTURA SITIADA

Introduzida no Brasil a vinte anos por elementos oriundos do neoliberalismo cultural de países europeus e dos EUA, a nossa cultura vive num cárcere de resoluções corporativas. E a primeira coisa que essa degenerescência impõe é a destruição do caráter nacional da nossa cultura. Isso é um enorme perigo, porque pouco ou nada sabemos desse objetivo oculto, lento e pernicioso que trabalha de maneira a fazer de nossa cultura um produto geral, cerebral e antinacional. Mas por incrível que pareça, desgraçadamente, as corporações, sobretudo as transnacionais recebem o apoio e a simpatia de muitas pessoas desorientadas da nova ordem global. Elas não conseguem perceber nas crises erguidas pela nefasta financeirização o grito de alerta para que nós não nos deixemos deformar pelas sombras do capitalismo mundializado.

Aqui, a falaciosa interatividade das corporações, Estado e “sociedade civil organizada” é um cosmpolitanismo ameaçador. Os críticos que deveriam ter grande responsabilidade, são mais cooptados do que a filosofia charlatanista do artista-empresário. Ora, se estamos vendo tanto despojamento em nome de um monstro universalista, absurdamente desejado pela nova ordem neoliberal, todas as nossas heranças serão ignoradas, desprezadas para que a índole do nosso povo seja sorrateiramente substituída pela “criadora” fórmula de mercado. E é bom que se diga que esta fórmula não tem pátria, apenas faz parte de uma contabilidade global altamente dotada de mecanismos de limitação e fracionamento dos autênticos valores de uma cultura nacional.

Mas vejo que aqui a nossa elite atrasada, os fervorosos jecas de farda viraram adeptos dessa procedência cultural e tentam escrever o futuro do país carbonizando o cérebro das classes médias, alta e, agora, a chamada nova classe média. O jogo é atribuir valor a tudo, e ingenuamente muitos artistas acham que nesse mundo cheio de vícios capitalistas, que é na verdade um refúgio de gestores medíocres, revelará seu rico repertório como se dentro das estruturas organizacionais tivesse um novo dínamo saudável ao espírito do nosso povo. Não, não tem, isso é um crime lesa pátria, é uma afronta à nossa capacidade criadora e à nossa inteligência. Mas o pior é que esse sistema se destina a nutrir o gosto de pequenas elites de “requintados” e envenenar as raízes da cultura brasileira.

Lembro-me, quando garoto, que o valor autêntico da expressão viva da cultura estava nos artistas, nos intelectuais com pensamentos inovadores, saudáveis, e aquele universo era disseminado entre nós jovens como uma nova teoria humana de igualdade, de fraternidade em que algumas regras éticas eram rígidas. E isso, quando publicado na íntegra, realizava o que chamamos de verdadeira obra de arte.

Hoje não se permite dentro dessas combinações e arranjos corporativos o pensamento de um indivíduo, um artista dotado de inovações autênticas. Este é superficialmente jogado na esfera da burocracia estreita das corporações e se torna um não artista, um não cidadão engolido pela sombra de um suntuoso instituto ou fundação nos centros econômicos das grandes capitais.

Não sabemos mais os nomes dos artistas, os fundamentos para a cultura agora são outros. Então a expressão característica dessa nova ideologia está nas siglas, nas logomarcas, nas estatísticas vazias, nos gerentes de marketing, nas leis de incentivo e seu emaranhado de mecanismos e, principalmente na palavra financiamento. Isso nos leva a uma igorância inédita, tudo porque fomos seduzidos pelas falsas teorias de progresso, quando na verdade estão sufocando o nosso talento, fazendo com que percamos o contato com a nossa realidade, com a nossa cultura. Eles querem nos comprometer com a formalidade dos mecanismos e que fiquemos preocupados com a orientação atual da nova ordem econômica ditada pelas corporações transnacionais que hoje conseguem mais visibilidade do que qualquer artista brasileiro.

É hora de mudar as nossas diretrizes, destruir esse abismo entre sociedade e seus artistas e intelectuais. Já chega de importar métodos de um contorcionismo cerebral que nos mói a todos como sociedade. É hora de tirar as nossas almas desse laboratório que detesta intuição e sabedoria popular. É hora de abrir os olhos e expurgar esse sistema que se desenvolveu no Brasil de forma assustadora e está, de planfleto em panfleto, escrevendo o nosso auto-exílio.

CARLOS HENRIQUE MACHADO FREITAS

Anúncios

2 respostas em “A NOSSA CULTURA SITIADA

  1. Pois é, Ana Terra, o Estado, no afã de salvar a massa falida da indústria do entretenimento, está numa longa e penosa tentativa de estabelecer critérios para a chamada “economia criativa”. Ao mesmo tempo em que renuncia à questão brasileira, já que a dita economia em nível global é tão abrangente quanto um caroço de mostarda, tanto que o sistema propriamente dito não lançou mão disso nem no mais agudo agravamento de sua crise.

    Esse “comércio mundial” proposto pela limitada prática da chamada economia criativa é quantitativa e qualitativamente uma moeda meramente especulativa. Na verdade é uma moeda podre e, por isso, mantém em 100% uma relação de dependência com o Estado. Lógico que as relações assimétricas com o resto do mundo, na cobiçada nova hegemonia, é mais que hesitosa. Pela vontade dos ingleses que inventaram o novo dinheiro global, economia criativa, nós teremos que nos adaptar às suas condições segundo os espaços que eles nos fornecerem.

    Isso é muito diferente daquele antigo sistema industrial, aquilo era praticamente a constituição de uma moeda única. Não era mercado, este que conhecemos de um simples intercâmbio que nasce do escambo e, depois, especializa-se em áreas produtivas de uma complexa teia econômica. Na verdade quando em um dado momento esse sistema chamado, mercado do entretenimento, não pôde mais monopolizar o processo, e neste inclui-se, produção e circulação, ele não soube criar valor às suas mercadorias equivalentes ao antigo monopólio.

    Tem gente que, por incrível que possa parecer, acha que a falência do mercado fonográfico mundial é culpa da internet, quando é claramente visível a mudança de comportamento que, na prática a tecnologia nos propiciou uma solidariedade que admitia uma produção independente que conseguiu, mesmo no seu sub desenvolvimento, criar um paralelo de forma a dividir o território com as grandes empresas.

    Parece bobagem, mas daí também nasce uma outra ordem social, individual contra o individualismo da indústria. E sabemos bem como as major’s tem aquele espírito arrebatador e possessivo. O comportamento deles é este, tudo ou nada, não querem saber de sociabilidade. A lógica é introduzir em qualquer mercado instrumento de super lucro e, portanto, convocam um pragmatismo monopilista sem competitividade aonde se caracteriza uma prática de dumping que hoje, felizmente, eles não têm mais condição de impor.

    É louco isto, mas um simples programa instalado em um pczinho pode revelar talentos que a indústria nunca teve interesse. E sabemos como o artista é sonhador, então ele mesmo faz tudo. Muitas vezes o próprio grava vários instrumentos, põe voz, queima o seu próprio cd e sai feliz vendendo para amigos, parentes e, logicamente mostrando o resultado de seu trabalho nas redes sociais. Nada mais legítimo e honroso. Esse tranco das andorinhas e o gavião é que criou novas modalidades e regras para a produção da música. Jamais teremos milionários, toalhas brancas, a estrela cravada na porta do camarim do artista principal, toda aquela papagaiada da indśutria do século passado. Todo esse individualismo tem hoje uma outra ordem política e, portanto, os bons músicos podem se tornar artistas e participar da vida econômica sem ter que pedir licença para essa barreira alfandegária que as major’s criaram.

    Isso, no Brasil, é de uma felicidade incomensurável. Um povo que celebra a sua própria música cantando em suas festas, nas esquinas, nas calçadas, não é pra qualquer um. É mesmo como disse Mário de Andrade… Enquanto os bolivianos, os peruanos, os colombianos trazem a folha da coca em seus lábios, por toda uma tradição cultural, nós do Brasil temos um povo que, entre os lábios traz a sua melodia. Por isso Villa Lobos falou com Getulio Vargas que… Este país que tem no seu mapa o formato de um coração é o metrônomo do mundo.

    É isso, Ana, o Estado que não é outra coisa senão a própria organização social do povo brasileiro em seu processo civilizatório, não pode se afastar de si mesmo. Um corpo sem alma é um corpo morto. E uma alma sem corpo é uma assombração.

    O que estamos vivendo agora é uma espécie de obsessão em que um espírito de pouca luz chamado, ganância das corporações, toma o corpo do Estado, sacode e tenta de todas as maneiras agir de acordo com sua vontade.

    A grande questão é mergulharmos nessa organização sócio-técnica para entender que o período da história cada vez menos se subordina às técnicas das máquinas.

    Milton Santos em seu extraordinário livro “Por uma outra Globalização”, fala, nos dois últimos capítulos, de uma nova consciência de ser mundo e, em seguida grifa que… Essas relações estão se dando pela grande mutação contemporânea, uma mutação tecnicológica para a emergência das técnicas da informação – que ao contrário das técnicas das máquinas – são costitucionalmente divisíveis, flexíveis e dóceis, adaptáveis a todos os meios e culturas. E disse mais… Quando essa tecnologia tiver uma utilização democratizada, essas técnicas doces estarão a serviço do homem. Milton santos escreveu isto há mais de dez anos. E como um visionário independente, como deve ser um intelectual completo, ele foi preciso em enxergar o que estamos vivendo agora.

    Ao Estado cabe apenas respeitar a ordem social que está sendo gestada no seio do povo brasileiro.

    Grande abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s