MINISTÉRIO DA ARTE

Ministério da Arte seria a solução?
Lembrei de um artigo do cineasta e ator Domingos de Oliveira propondo a criação do Ministério da Arte e hoje acho que talvez não seja uma má idéia. Na ocasião pensei que o Ministério da Cultura poderia atender aos segmentos profissionais da arte adotando políticas públicas bem definidas porque afinal toda arte é cultura, mas nem toda cultura é arte. Todo mundo é criativo, mas nem toda criação é arte. Porque usar criatividade como sinônimo de arte equivale a dizer que todo mundo é artista. O que equivale a dizer que, se todo mundo é artista, ninguém é.
A grande causa do não entendimento dos diversos setores culturais é não se estabelecer conceitos claros jogando tudo no mesmo balaio. Da mesma forma que tentar suprir as deficiências de uma sociedade desigual utilizando arte e esporte como principais atividades para inclusão social é tapar o sol com a peneira. E furada ainda por cima. Significa dizer para um jovem carente que as únicas formas de ascensão social reduzem-se a ser um esportista ou um artista bem sucedido.
Imagino os danos para aquele que não é bom em nenhuma das duas coisas sendo estigmatizado como “perdedor”. Ele queria ser um matemático, um mecânico, um administrador, um filósofo mas ele não será porque vive numa sociedade de exclusão.
Também observo os danos que o conceito de democracia vem sendo utilizado. Colocar em discussão pública as normas que vão nortear um segmento profissional não é democracia, é irresponsabilidade. Quem sabe dos problemas de sua classe é quem ganha o pão com seu oficio. Não é qualquer passante, agora chamado de “representante da sociedade civil que pode dar palpites e votar decisões na área profissional da arte.
Sinto falta de um órgão para minha área, à altura do que é a música brasileira. O audiovisual já foi fartamente contemplado com uma agencia e uma secretaria enquanto nós estamos embrulhados com outros segmentos que nem de longe apresentam a complexidade da atividade musical que envolve indústria, comercio, tecnologia, meios de comunicação, legislação autoral, acordos internacionais etc.
Seria pedir demais que as políticas públicas para os artistas sejam ditadas pelos próprios? Ou vamos precisar criar um Ministério da Arte?

ANA TERRA

Anúncios

4 respostas em “MINISTÉRIO DA ARTE

  1. Acho a idéia ótima. A mina despoluida da criação artistica de nossa gente, da nascente ao consumo, orgânica, sem a interferência dos agrotóxicos do sistema. O “MINA” = Ministério da Arte. rsrs. Bela idéia Ana Terra. Lutemos por ela.

  2. Oi Ana Terra.
    Esta questão é mesmo complexa. E é verdade que há uma desnaturalização da arte, mas sobretudo ela se dá à medida em que a civilização cresce como uma mamona rumo às antigas charretes das quintas.

    Há muito venho falando da ingenuidade de pautar a cultura pela excelência, porque excelência neste país sempre foi sinônimo de requintes inúteis, mais que isso, sempre andou longe do nosso bom senso.

    Eu particularmente uso uma medida para avaliar a arte e nunca pelo auto-encantamento. Minha visão é sempre outra, de mim pra voce, por exemplo. Fico de longe observando a beleza de suas escolhas. Como sou músico, vou tentando incorporar alguns dos elementos que me encantam, em minhas composições, em meus arranjos e, assim, isto passa naturalmente a estabelecer um lugar no nosso código estético.

    No entanto é mais fácil manter a distância quando analiso outras artes que nem principio, ali o encantamento é total. E é nesse momento que dou valor incomensurável à arte. Coloco-me mais como sociedade do que como artista. Então estabele-se uma relação de aproximação, mas com seus devidos papéis funcionando organicamente. Ninguém está passivo, mas há um lugar na sagração da arte que a coloca na condição de contemplação. Então vemos a arte, sorrimos, refletimos, admiramos cada detalhe do artista e pensamos, sobretudo no seu grau de competência em produzir uma síntese dos nossos sentimentos.

    É aí nesse momento que consigo separar de mim a arte produzida por um artista plástico, por exemplo. Ocorre que quem destituiu o artista e o intelectual do universo da cultura foram justo os que, no comando corporativo, buscaram estabelecer e manter um repaginamento que lhes conferisse a possibilidade de criar novos inventários e, assim, realizar um multiculturalismo repaginado pelos seus interesses. Então entra agora uma lista de quem adotou os termos exóticos e, como todos sabemos, essa sugestão cheia de sensações artificiais foi além do dodecafonismo e criou a maior parva mentira celebralista para empinar suas pipas conceituais nos céus de brigadeiro nos doces mares da zona sul.

    Pensando nisso a partir do conceito de mundialização, pelo próprio instinto, o capitalismo cultural e sua, sempre, lição científica, criou sua própria grade. Qualquer coisa fora disso, seria um flagrante delito a essas relíquias “revolucionárias”.

    Sei e até entendo que, por uma questão de sobrevivência, muita gente não só quis fazer parte desse golpe conceitual, mas também quis se aperfeiçoar no emaranhado de conceitos para alcançar as camadas mais altas do poder de quem controla economicamente o universo da cultura.

    Minha sugestão é que tivéssemos dentro do próprio ministério não uma representatividade de classe da música, mas esta entidade nacional, A Música do Brasil. E tentar retomar aquele olhar magnífico de Mário de Andrade que misturava contemplação com estudo de todas as filigranas de um processo efervescente que transita sem parar por toda a nossa trajetória como civilização brasileira. O difícil Ana, é compatibilizar tantos interesses, vaidades, egos tão comuns nesse mundo e pairar sobre todas essas pequenices e enxergar este monumento que o mundo admira, mas que incrivelmente nós, inclusive muitos músicos, não conseguimos fazer o mesmo.

    Seria uma maravilha fazer um trabalho de desintoxicação nesses conceitos de músicas industrial, ornamental e sobretudo doutrinario. Mas há um jogo muito pesado que não podemos de maneira nenhuma desconsiderar. E foi sobre isto, em certa medida, que escrevi hoje no blog Trezentos.
    “O QUE ESTÁ POR TRÁS DOS ATAQUES AOS MOVIMENTOS SOCIAIS DA CULTURA”
    http://www.trezentos.blog.br/?p=6678

    Grande abraço e admiração.
    Carlos Henrique Machado.

  3. Adorei o texto e a chamada à reflexão. Sou fã de Ana Terra em nossos muitos encontros e raros desencontros. As reflexões de Carlos Henrique são também fecundas e transformadoras. O Grita! está ventando e singrando esse mar de viração que estamos testemunhando. Sérgio Ricardo vem tocando o barco com mão firme, braço forte e o olhar longe. Bêjo aos três!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s