O SAMBA NÃO NASCE NAS CORPORAÇÕES, COMO DISSE NOEL, ELE NASCE NOS CORAÇÕES

CARLOS HENRIQUE MACHADO
“Adote um banqueirinho!
 No ano de 2008, a Bolsa de Nova York foi a pique. Dias histéricos, dias históricos: os banqueiros, que são os mais perigosos assaltantes de bancos, haviam despojado suas empresas, embora jamais tenham sido filmados pelas cämeras de vigiläncia e nenhum alarme tenha disparado. E não houve maneira de evitar a derrocada geral. O mundo inteiro desmoronou, e até a Lua teve medo de perder o emprego e se ver forçada a procurar outro céu. Os magos de Wall Street, especialistas em vender castelos no ar, roubaram milhões de casas e de empresas, mas um único banqueiro foi preso. E, quando imploraram aos berros uma ajudinha pelo amor de Deus, receberam, pelo mérito do seu labor, a maior recompensa jamais concedida na história humana. Essa dinheirama teria bastado para alimentar todos os famintos do mundo, com sobremesa e tudo, daqui até a eternidade. Ninguém pensou nisso.”(Eduardo Galeano).
Um simples prato da nossa cultura gastronômica, Tutu com Torresmo, vale bem mais que a pilha de institutos e fundações que centrifugam os recursos públicos da cultura através das leis de incentivo. A liturgia corporativa parece cegar as pessoas. Basta uma dessas corporações criar pelos para nascerem as caldas de um “estilo vitorioso” da gestão corporativa de cultura.
Durante esta semana fiquei perplexo ao verificar a logomarca da chamada de um dos cursos dessa forma de gestão. Era um cifrão em forma de edifício pintando uma paisagem de autosserviço como um banco 24 horas. Os grandes mestres dessa epopeia “criativa” são os bichos soltos que, aí sim, criam governos paralelos dentro da serpentina fiscal (leis de incentivo) e se enroscam com o Estado dando literalmente um abraço de afogado na criação brasileira.
Aonde já se viu banqueiros manipularem mais de 100milhões extraídos do lombo do trabalhador brasileiro enquanto criadores passam fome? Lógico que eles insistem em assinalar que tais recursos, ao contrário da realidade, não são públicos, mas detestam ser interrogados sobre a fonte dos impostos numa mistificadora manobra para tentar aleijar a imagem do contribuinte que paga, ali na batata, os impostos embutidos em cada produto e em cada serviço.
Ora, se é pouca a verba da cultura, por que então devemos doá-la para empresas que, além de usá-la como ferramenta de suas negociatas políticas, cobrem-se do manto de matriarcas das letras e das artes brasileiras? Isso é estúpido. Isso é mais do que nos remeter à idade da pedra lascada. Esse feudalismo rococó é a cena central de toda esquizofrenia a que assistimos no território da cultura.
O que surpreende é o nosso silêncio diante dessas questões. Uma quantia de 100milhões manipulada por um único banco, como é corriqueiro no caso da Lei Rouanet, daria para produzir milhares de trabalhos dos melhores criadores anônimos das páginas de nossa história atual.
O Brasil tem um povo detentor de uma cultura de alto valor artístico e histórico. Cultura esta conquistada numa guerra contra o laboratório patriarcal que sempre dominou os corações e mentes de nossas oligarquias.
Não é possível que qualquer um de nós, sozinho, concorra com esse vale-tudo do capitalismo cultural que regula em seu círculo vicioso o que deve ou não ser “patrocinado” pelas lógicas de sua homogeneização. Até quando obedeceremos calados às regras sugeridas por tais atividades hegemônicas?
Hoje o território brasileiro tem um conjunto de equipamentos, institutos e fundações de grandes coporações, erguido e sustentado em 100% com recursos públicos e sempre nos espaços mais valorizados das grandes metrópoles. E essas mesmas instituições impõem suas práticas e normas ao conjunto da sociedade e nos coloca a todos numa condição de servos da gleba.
A nossa terra dispõe de condições objetivas, materiais e intelectuais suficientes para superar o endeusamento do dinheiro. Em cada geração de brasileiros há disponível um vulcão de criatividade, graças aos traços comuns criados pelo caldo de cultura que nossa história nos proporcionou. Isso é o bastante para nos jogar num futuro extraordinário, longe das regras que querem nos forçar a uma adaptação conveniente às pretensões de manter, através da cultura, a hegemonia do capital.
Está na hora de buscar entendimento em torno dessa questão de forma mais ampla e de cobrar do Ministério da Cultura que ele assuma o comando institucional de uma outra ordem, esta sim, a serviço do Brasil e de suas novas ideias a partir de novas ações e relações. Somente assim descobriremos o sentido de nossa presença na história universal da cultura brasileira.

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