SAMBA DE PÉ QUEBRADO

Nem político ou jurista
O meu samba fica em pé
Pra falar de um grande artista
Cidadão, chamado Zé

Como sambista e cidadão, questiono se Zé Dirceu é culpado pelas acusações que lhe fazem. Mas o que mais me abala  é ver essa condenação envolta em falha dramaturgia  na vergonhosa canastrice desse teatro montado para encenar uma farsa orquestrada, logo dias antes das eleições. Impuseram o papel de vilão a Zé Dirceu, enfiaram-lhe a carapuça de algoz, para neutralizar a força de um político corajoso, dos melhores já surgidos no cenário da nossa política. Corajoso não  só por ter enfrentado o fogo da ditadura, ou bisturis transfigurando-lhe a verdadeira fisionomia, ou a fugir de perseguições por suas corajosas incursões que poderiam ter-lhe custado a vida.  Neste momento, seria ele o provável líder a se insurgir contra os desmandos em torno desse diabólico plano entre incêndios de favelas a torrar cadáveres, em busca de votos, de uma direita enfurecida vendo escapar-lhe o poder entre os dedos. Zé Dirceu, por coincidência, seria o líder verdadeiramente preparado para encarar essa parada? “Eles” não são tolos. Neutralizaram o homem certo. La vem o samba do pé atravessado.

Desde suas intervenções como presidente da UNE, das quais sou testemunha ocular, que a seu convite ia cantar minhas canções para os estudantes, ficava a admira-lo criar e continuar a luta pela emancipação do povo deste ingênuo pais que, por todas as razões, eu supunha viesse cobrar essa parcialidade em sua condenação, deixando clara a subserviência às imposições de um jogo sujo da política oligárquica. Esta que tenta, a qualquer preço, esmagar as conquistas verdadeiras do povo brasileiro, amordaçando e tentando desmoralizar seus verdadeiros líderes.

Aproveitando-se da ingenuidade de parte da população, muitos hoje o execram e não percebem a importância exercida por este Zé, que passará para a história queiram ou não seus detratores, independente de todas as hipotéticas manobras explicitas em sua condenação. Ambicioso sim, como todo pai que quer ver seus filhos prosperarem na vida, capaz de qualquer manobra para consegui-lo.

Não pela ganância pelo dinheiro. Será julgado, subrepticiamente, por uma causa, difícil de ser traída dada a grandeza de sua entrega. Há dois propósitos distintos no desvio do dinheiro público. Um em favor do povo e outro em favor do próprio bolso. Se Zé mexeu no dinheiro do povo para supostas manobras políticas, foi pra contrapô-lo ao dinheiro podre das ricas mutretas dos poderosos, com o sentido claro de continuar sua obra obstinada. Esta me parece a hipótese mais verdadeira. Qualquer cidadão a lutar por seu povo teria feito o mesmo, como única estratégia viável, enquanto não fosse possível derrubar este sistema decadente que aí está, de vampirescas incursões no sangue da pobreza galopante de todo o mundo.

Zé escapou de todos os perigos que encarou desde estudante e militante, com incrível potencialidade de liderança, para ser pego agora, dentro de uma manobra óbvia de interesses eleitoreiros de sujíssima qualidade. Eu vi. De peito aberto  encarando militares de arma em punho, impedindo a prisão de um colega, frente ao Mackenzie de São Paulo. Seu semblante traduzia uma firmeza de bom caráter escrito com todas as letras. Nasceu pra arte política. Sabia executar se instrumento e não quebraria o pé de seu samba traindo o povo.

Guerreiro sagaz, astuto, estrategista, chegou ao poder depois de infinitas peripécias, para ajudar um presidente, empossado nos braços do povo, a romper fronteiras dos problemas tidos como intransponíveis, cujas conquistas, muitas das quais devem-se a ele nas silenciosas manobras do palácio.

E o Mensalão?  O mensalão não será apenas uma gota no oceano de mensalões espalhados na histórica política deste pais? Supondo falso tudo o que eu disse até agora, resta a pergunta óbvia que não quer calar. Muito bem. Consta, ainda que sem provas, que Zé Dirceu seja culpado por x+y. E o resto do alfabeto com suas infinitas combinações?  Nomearemos cada um dos ladrões do dinheiro do povo, a percorrer os corredores do palácio portando pastinhas indevassáveis  com documentos da roubalheira do pais? São todos inocentes? Existirá uma dúzia de decentes que nunca enfiou uma grana na cueca? Como é isso, justiceiros do meu país? Só o Zé tem que ser condenado sem provas? E os outros? Aqueles, cuja causa sempre foi a causa própria, nomeando familiares, abrindo contas no exterior, e um cordel de ilícitos que me enoja enumerar? Repletos de provas?! Não será uma incongruência, no mínimo surrealista? O samba do crioulo doido?! Todo atravessado?!

Temos que continuar assistindo a esse tragicômico espetáculo da impunidade? De intenções de há muito transparentes, pousando com largos sorrisos para a imprensa conivente? Agem como donos do mundo a rebolar num carnaval deletério sobre o cadáver do Zé Dirceu.  Desculpem-me justiceiros de plantão, há algo errado nessa conta: x+y não é igual a TOTAL. Enquanto não surgirem provas concretas x+y é igual a ZÉ NINGUÉM.

Este samba, meus caros cidadãos, está de pé quebrado. Só não vê quem é ruim da cabeça, ou doente do pé.

Sergio Ricardo.

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2 respostas em “SAMBA DE PÉ QUEBRADO

  1. Perfeito, Sergio, está faltando muita gente no enredo desse samba. De arranjadores a ritmistas, de compositores a mestres de bateria, de diretores de harmonia a porta-bandeiras e mestre sala e o principal, falta a comissão de frente. Porque cargas d’água essa comissão de frente só acusa se entre os fios de seus cachos de cabeleira branca da nebulosa fábrica de falcatruas, cabem milhares de milhões de arrebatamentos valorosos de nosso suado e tributo que nos é imposto.

    Chega de tapar o sol com a peneira, chega de aceitar fachadas arranjadas e decoradas como se o interior estivesse límpido como água cristalina.

    Abraços musicais,

    Carlinho Motta

  2. Uma das qualidades que admiro nas pessoas é a coragem. Outra, éa rebeldia, o inconformismo, é o não silenciar ante o que lhe parece injusto – seja ou não – e afrontar a correnteza. Poucos levantam o dedo para dizer “Êpa, isso não é assim”, se não for atingido pessoalmente. O que acontece com os demais não interessa, não desperta indignação e não é um problema para muita gente que eu conheço. A sorte, é que eu também conheço o Sergio Ricardo, que maravilha! Sou sua admiradora!!!

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