A LINGUAGEM NEOLIBERAL NA CULTURA

Escreva alguma coisa.

Atualização de status
De Carlos Henrique Machado Freitas
Há uma linguagem universal que vem instrumentalizando a cultura a partir da introdução de técnicas, mas sobretudo por uma busca em qualificar em cada etapa o desenho pré-moldado pelo pensamento neoliberal. Isso, no Brasil, vem sendo construído profissionalmente há pelo menos vinte anos. É um projeto que nasce com Collor, a Lei Rouanet, e que FHC pavimenta, como foi a natureza de seu governo. Vinte anos depois, mesmo nos governos Lula e Dilma, esses universalistas vêm determinando políticas estratégicas no Estado, mesmo não sendo este a central dessa tropa de burocratas neoliberais. No entanto, com a terceirização, via OSs, estados e municípios têm contribuído para um eficiente projeto de dominação, quase em definitivo, desses artiuladores que se autoclassificam de conferencistas e gestores do mundo novo da cultura. Assim como vemos a condução distante da sociedade dos institutos e fundações das grandes corporações erguidas e sustentadas com recursos públicos, percebemos cada vez mais que começam a formar uma rede articulada, como estradas auxiliares, várias secretarias municipais e estaduais de cultura. Por menores que sejam as cidades o tráfego desses gestores, que oferecem a fábula da cidade criativa como ponto comercial da cultura, tem construído sonhos na cabeça de prefeitos e governadores. Assim ratificam a ideia de organizar as culturas locais pela lógica do capital. E novamente cito Milton Santos. “Se tudo se torna capitalista, está instalada a contradição”. Por isso vemos tanto dinheiro circular, cada vez em maior quantidade, vendendo uma pedagogia de submissão ao lucro como prática educativa, preenchendo todos os espaços institucionais e naturalmente cerceando a autonomia e a liberdade da sociedade brasileiras em suas livres manifestações. Alguma coisa tem que ser feita contra esses que se acham os verdadeiros donos do mundo. O discurso neoliberal embutido em nome da eficácia desses projetos já dominou todas as mesas de debates, não deixando qualquer brecha para a reflexão. Tudo se transformou numa preparação técnica para que uma cidade inteira embarque nesse esquema movido pelos motores do capital, mas financiado sempre com recursos públicos. O Brasil tem urgência em discutir profundamente esta questão antes que percamos o caminho de volta para casa.
Anúncios

2 respostas em “A LINGUAGEM NEOLIBERAL NA CULTURA

  1. Esse negócio de spam é uma maldição. Não existe filtro que proteja nossa caixa de emails de tanto lixo. Deleto inumeras mensagens após ler a primeira linha. Ontem recebi uma que teria a lixeira como destino certo. Mas me senti compelido a responder antes de deletar, e também compartilhar a minha reflexão. Segue abaixo:

    Escrevo isso a próposito de um texto com o qual me deparei na minha caixa de correio eletrônico, atribuido ao compositor Fernando Brant. Na epígrafe, quem encaminhou o texto incluiu algumas frases que me chamaram a atenção, talvez pelo intento de capturar o leitor com base num forte apelo emocional: “leiam com atenção quem tiver coração” este “tratado de lucidez”. O título é aterrorizador: “sai a gentileza, voltam os abutres”, publicado no jornal O Estado de Minas no dia 10 de outubro de 2012.

    Mas toda essa chamada impactante logo se perde na leitura das primeiras linhas. Logo se vê que o que mais falta ao texto é exatamente a lucidez. E nada ali parece ter sido escrito com o coração. Muito provavelmente foi inspirado pelo fígado.

    Existem na música brasileira letristas extremamente talentosos. Mas nem sempre o talento para os versos também se reproduz na escrita em prosa. Chega a assustar como autores de versos tão belos são capazes de escrever textos tão horrendos. Tanto na forma quanto no conteúdo.

    O artigo começa de forma um tanto paranóica, afirmando que existem pessoas que “odeiam os autores, os criadores de arte” que os vêem como uma espécie a ser extinta (especialmente os de música, diz ele, puxando a brasa pra própria sardinha).

    Em um parágrafo longo e verborrágico, associa esses intuitos destrutivos aos ditadores, aos contrários ao pensamento livre que é a “essência de todo artista”, pois os tiranos não aceitam contestações e querem calar quem pensa diferente.

    Por um momento achei que ele estava falando do ECAD, pois ele fala “de perseguir quem contraria os seus desígnios” , “quem não marcha unido com ele é inimigo” e coisas similares. Afinal, essa entidade é uzeira e vezeira em processar por calúnia e difamação todos aqueles que lhes dirigem críticas públicas. Perde sempre, mas nunca deixa de usar essa forma de intimidação para calar os críticos. Vários compositores que reclamaram em público já sofreram na pele essa retaliação da entidade que diz “ser deles”. Quem quiser conferir, pode encontrar vários depoimentos sobre isso nos anais da CPI feita pelo Senado Federal recentemente.

    Bem, o Brant é presidente de uma associação de autores que é a maior controladora daquele mal falado escritório. E isso há uns 30 anos, pelo menos, em eleições e reeleições sucessivas, quase sempre com chapa única e participação mínima (é o que se deduz por alguns depoimentos da citada CPI). Mesmo assim, sempre dizem representar milhares de criadores (que talvez sejam as “maiorias silenciosas” da qual falava Jean Baudrillard). Isso me faz lembrar um velho ditado popular: “o uso prologado do cachimbo deixa a boca torta”. Porque o raciocínio usado por Brant é completamente tortuoso.

    Essa concepção do autor como sendo sempre um libertário vitimado pelo autoritarismo é um tanto frágil. Pensei no brilhante poeta Ezra Pound conclamando pelo rádio para que os aliados não invadissem a Europa nazi-fascista. Poderia dar muitos outros exemplos, mais fico só nesse, suficiente para demonstrar o raciocínio simplório da prosa desse talentoso autor de versos da nossa MPB. Enfim, se fosse só para contestar com o mesmo maniqueísmo de raciocinio poderiamos dizer: nem todo artista é “do bem”, só pelo fato de ser artista. Mas a questão é muito mais complexa.

    Prosseguindo na análise desse texto bisonho, o notável compositor identifica quando e como toda essa suposta perseguição aos artistas começou: em 2003, com um “grupo de assessores Ministério da Cultura” e “advogados juvenis” da Fundação Getúlio Vargas. Mais um raciocínio inusitado. Afinal, naquela oportunidade o Ministro era Gilberto Gil, a quem ele espinafrou com insultos grosseiros num grande jornal carioca. Agora omite isso.

    Será que a omissão a esse fato significa que ele mudou de opinião? Será que ele pediu desculpas ao Gilberto Gil? Teria o ex-ministro sido enganado por assessores malvados e jovens advogados inexperientes? Ou será que tudo não passa de um desconforto com os assessores que a nova Ministra está nomeando (ou renomeando) ? Afinal, uma das críticas mais frequentes que a ex-ministra sofreu foi a de contratar assessores simpáticos ao ECAD.

    Se for por qualquer uma dessas razões, é algo a se lamentar. Porque isso revelaria um tanto de covardia e oportunismo, além de um profundo desrespeito com um sócio notório (Gilberto Gil) da entidade que Brant preside (a União Brasileira de Compositores-UBC).

    O texto ainda é preenchido com loas a ex-ministra e com exaltações aos maiores nomes da nossa música, num apelo emocional que, enquanto recurso literário, chega a ser primário. Por fim, diz não entrar no mérito do direito da nova gestora do MINC de fazer nomeações de sua confiança. Em mais uma construção de alta pobreza estilística, lembra que ela é “mãe de autores”, talvez na expectativa de angariar algum tipo de solidariedade de classe. Parece que ele se esquece que a nova Ministra teve uma longa trajetória profissional como psicológa, que nunca morderia uma isca tão infantil. Aliás, é bom que avisem pra Ministra se preparar, pois logo os xingamentos vão se dirigir a ela, atendo em vista a forma vil como o Gilberto Gil foi atacado. Qualquer um que ocupe um alto cargo público tem que aturar democraticamente as críticas, por mais duras que sejam. Mas vileza é desvio de caráter. Quem a profere não merece consideração.

    Pra finalizar, e com intensidade digna de um drama das novela das oito – ainda que nada crível – o renomado compositor alerta que “os abutres já pousaram em Brasília’ e estão prontos para comer “a carniça da música popular brasileira”. E pede a proteção de “santos” compositores que ele mesmo canoniza. Uma image forte, sem dúvida. Mas que não encontra eco na realidade. Talvez esse compositor devesse tomar um trago pra relaxar. Ou então parar de beber, pra poupar o fígado. Porque essa forma tão desequilibrada de criticar não acrescenta nada. Uma pena.

    Falei acima do Ezra Pound. Mas podia ter falado do Nélson Rodrigues, que sempre apoiou a ditadura militar em nosso país. Ou do Luiz Gonzaga, que foi cabo eleitoral da extinta ARENA. Essa é uma reflexão importante. O talento criativo não dá a ninguém a razão, nem as livra de equívocos pavorosos como esses. É preciso separar a criação de seu criador.Tanto que agora mesmo vou ouvir um CD do Clube da Esquina. Poesia da boa. A prosa ruim eu dispenso.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s