O COLEGA TIM RESCALA SEGUE NO MOTE

Possíveis reações alérgicas ao se vestir uma camisa

Motivado pelo contundente texto do mestre Sergio Ricardo, que mesmo sendo duro, não perde a ternura jamais, me atrevo a dissertar sobre o papel do artista nos dias de hoje.

Faço isso no contexto da discussão sobre o direito autoral, polêmica por natureza. Ela acirra ânimos, expõe feridas e, infelizmente, divide a classe e afasta colegas. E por quê será que isso acontece? Por várias razões, mas a principal delas é porque envolve muito dinheiro. E onde há fumaça e dinheiro, há fogo.

Sem entrar em detalhes técnicos, constatamos que o tema sempre foi um barril de pólvora. A história do direito autoral no Brasil é feita basicamente de litígios, de enfrentamento, de acusações intermináveis de ilícitos criminais. E hoje mais do que nunca.

Observamos também situações curiosas. Muitos daqueles que defendiam a fiscalização estatal da gestão há trinta anos atrás, quando se consideravam alijados do sistema, hoje são contra ela. Só que agora eles fazem parte do sistema que condenavam.  Os alijados de ontem são os satisfeitos de hoje, com honrosas e pouquíssimas excecões, dentre elas Sérgio Ricardo e Ivan Lins, exemplos de coerência e luta pelos interesses de sua classe e não de seus próprios interesses. O que será que mudou então? O sistema é que não foi.

Cada um pensa e diz o que quer. Cada um toma a posição que quiser. Mas por quê será que um artista se posiciona contra ou a favor de algo, de forma tão veemente, expondo sua imagem, seu passado, sua carreira, sem saber, de fato, o que está defendendo ou em nome de quê está lutando? É para garantir o quê ? Algum benefício, alguma vantagem?

Por que será que um artista se presta a atuar como escudo de um contador, de um advogado, de um administrador de empresas, desconhecendo o que esses profissionais fazem de fato em seu nome, há trinta anos, em revezamentos intermináveis em  cargos de diretoria?

Todos nós que colocamos nossa cara à tapa, principalmente quando tocamos em feridas abertas, como esta do direito autoral, estamos sujeitos a todo tipo de intempéries. Faz parte do jogo, mesmo porque se não for assim, nada, efetivamente, vai mudar.

Mas o que observamos no recente episódio citado no texto do Sérgio, é que artistas que ocupam cargos de diretoria nas sociedades, sendo assim por elas remunerados, vestem a camisa destas entidades , mesmo estando seus dirigentes sob acusação de ilícitos criminais, com seus nomes sugeridos para indiciamento. Alguns, aliás, já estão nessa situação faz tempo. Coisas do Brasil.

Me pergunto então: esses artistas, que construíram carreiras vitoriosas, que conquistaram a admiração e o respeito de seu público, sabem mesmo o que estão fazendo? Sabem mesmo o quê e quem estão defendendo? Prefiro pensar que não.

Dizer que se defende o direito autoral é fácil. Isso todo mundo diz, até o usuário que não quer pagar direito autoral pode se valer desse discurso. Mas do discurso à ação vai uma boa distância.

Atualmente, nós, artistas, somos chamados a assinar todo tipo de manifesto e a emprestar nossas imagens a todo tipo de movimento. Esta é, sem dúvida, uma postura política, onde o papel do artista se funde ou se entrelaça com o papel do cidadão. Por isso, quando vestimos alguma camisa, principalmente quando esta vem com uma estamparia com dizeres em letras garrafais pregando ou cobrando qualquer coisa, é essencial sabermos quem a confeccionou. É preciso saber a origem do algodão, se ela tem etiqueta ou não, enfim, se o produto é de boa qualidade. Caso contrário, com o tempo, ela pode produzir uma desagradável reação alérgica em quem a veste.

Tim Rescala

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6 respostas em “O COLEGA TIM RESCALA SEGUE NO MOTE

  1. Fato curioso: esteve em cartaz no teatrinho do Marcado São José das Artes, em Laranjeiras, nos anos 90, uma peça que continha músicas de minha autoria. Eu não era filiado a quaisquer entidades arrecadadoras. Certo dia chegou um representante do ECAD exigindo que a produção do espetáculo pagasse pela execução das músicas da peça. Precavidos, os produtores solicitaram minha presença. Eu era frequentador do local. Exibi então as partituras em meu nome, declarando não ser sócio da entidade e que havia autorizado o uso das minhas músicas gratuitamente. Mesmo assim o fiscal insistiu que era preciso ir ao escritório fazer o tal pagamento. Pode?

  2. Caro Lula não é preciso ser especialista para saber que suas composições são de sua inteira disposição e é direito constitucional seu não estar ligado a entidade que vc não queira estar vinculado…o resto é enrolação! vc protege as obras que desejar proteger a não ser que tenha contrado de Edição com alguém.

  3. Tenho músicas minhas em peças de teatro em Brasília, não sou vinculado a nenhuma sociedade arrecadadora e nenhum agente do Ecad irá fazer quem quer que seja pagar direitos autorais sobre minhas obras, cujos direitos sobre ela são unica e exclusivamente meus

  4. Ótimo texto! Como não poderia ser diferente, vindo do Tim. Na atual conjuntura, uma pessoa q apoia o ECAD ou é no mínimo suspeito, ou é ingênuo demais e pouco informado…

  5. TIM!…..DESDE DE QUE NOS CONHECEMOS, TODAS AS VEZES QUE O CONVIDAMOS PARA VIR A SÃO PAULO, SEJA, PARA DISCUTIR DIREITOS AUTORAIS, DIREITOS TRABALHISTAS, REFERENTE AS PROBLEMÁTICAS DO DIREITO DO MÚSICO, OU DIREITO DO AUTOR, VC ESTÁ SEMPRE PRESENTE, ATÉ MESMO BANCANDO A SUA PASSGEM PARA PARTICIPAR DAS DISCUSSÕES…VC MAIS DO QUE NINGUÉM, VESTIU, E VESTE, A CAMISA SEM MEDO DE REPRESÁLIAS.
    VC SABE, NÃO SÓ DAS DIFICULDADES, COMO TAMBÉM DOS PROBLEMAS…QUE TEMOS NO REPERTÓRIO DA LEGILAÇÃO BRASILEIRA, REFERENTE AO MÚSICO, AO COMPOSITOR, COMO TAMBÉM SABE DA LUTA INFINITA QUE ESTAMOS TRAVANDO A TEMPOS, PARA A MUDANÇA NO SISTEMA DE GESTÃO COLETIVA, E NA MUDANÇA DA LEI 3.857/60, QUE CRIOU A ORDEM DOS MÚSICOS DO BRASIL..E DAS PORTARIAS 3347/86 – 3346/86 E 446/04 TODAS PORTARIAS DO MTE DA NOTA CONTRATUAL DE TRABALHO DO MÚSICO…
    MESMO QUE ALGUNS CONTINUEM A FAZER DE CONTA QUE NÃO EXISTIMOS, CONTINUAREMOS A LUTA, SOMOS A PEDRA NO SAPATO DAQUELES QUE NÃO QUEREM A NOSSA PARTICIPAÇÃO.
    AGORA AQUELES QUE DEVERIAM NOS AJUDAR, POR FALTA DE COMNHECIMENTO, TALVEZ POR FALTA DE CORAGEM, OU ATÉ MESMO POR CONIVÊNCIA, NÃO FAZEM NADA!…ATÉ QUANDO?
    MÁRIO HENRIQUE DE OLIVEIRA (MARINHOTP.)
    PRESIDENTE-SIMPRATEC-SP
    SIND. DOS MÚSICOS PRÁTICOS, TÉCNICOS, INTÉRPRETES, AUTORES E TITULARES DE DIREITOS AUTORAIS DE SP.
    SECRETARIA NACIONAL DA CULTURA DA UGT/MÚSICA

  6. Muito bem Tim, concordo plenamente com quase tudo que escreveu, menos quando diz não acreditar que os artistas que ocupam cargos de diretoria não sabem quem são seus presidentes. Sabem sim Tim, e se apropriam da mesma formado nosso quinhão, e há anos! Acrescento: por que não conseguimos saber com anda a CPI? Pelo menos oito pessoas foram indiciadas, como você citou, e até agora, nada! Elas continuam em seus altos cargos de presidência ou diretoria, continuam recebendo – e muito bem – o dinheiro alheio, e nem se fala no assunto.

    Um abraço,
    Cláudia Savaget

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