“A CLASSE”

Numa sociedade desigual, como a nossa, as fusões de classes vão se dando por núcleos. E cada uma delas cria e sustenta seus próprios “fatos éticos”, algo que busque consenso e espírito de concordância entre os pares. Na realidade é uma fusão de sentimentos a partir de fatos alegados e acordos abertos apenas ao que interessa à “classe”.
O Brasil, que tem em sua música uma proposta básica de descompromisso com interesses segmentados, assiste agora a cada dia a uma prova de fogo na conexão entre o século passado e o vindouro. Não existe sincronismo de pensamento, ao contrário, o que se fortalece nessa dialética são as derivações de um quadro convulsivo em que a racionalidade está muito abaixo de um nível minimamente aceitável.
É justamente como disse Milton Santos:
Da cultura à indústria cultural
“É por isso que toda controvérsia sobre o assunto deve ser atualizada e, para ser consequente, tem de ser começada e terminada com a difícil, mas escorregadia, discussão sobre a indústria cultural: o que é, como se dão seus efeitos perversos em termos de lugar e de tempo. Sem isso o debate pode se dar hoje, mas é como se ainda estivéssemos vivendo em outro século e em outro planeta. Sem essa precaução, corremos o risco de colocar no mesmo saco as diversas manifestações ditas culturais e de avaliar com a mesma medida os seus intérpretes”.
A própria geografia da música brasileira contribui para o entendimento da nossa história. Há em cada nota musical uma informação disponível e o aprofundamento que possibilita a nossa identificação, sobretudo dos artistas relegados que levaram, numa parcela infinitamente maior que a do mercado, a música brasileira no paralelo. Uma música em busca da cidadania, não a da indústria que propõe uma visão limitada e unidirecionada, mas uma música com densidade humana conduzida pelo desejo das demandas sociais.
No Brasil, no entanto, tornou-se impossível, a partir do sistemático ataque de quem se acha dono do direito autoral e do próprio conceito “música brasileira”, identificar os indivíduos, os artistas fora do “reconhecimento do mercado”. Não me lembro de outro momento igual em  nosso país que nos permita comparar com essa depressão conceitual.
O fato é que o Ecad consiste nesse imaginário, nas ofertas materiais da produção musical. Para ele, somente aí a cultura tem peso. Não há a menor preocupação com o fortalecimento de nossa principal linguagem artística. Tudo é feito pelos vetores de cima realizando uma história própria para suprimir os vetores de baixo. Assim ele pode conduzir os “direitos” da “classe” de forma desejada.
Na realidade temos uma aglomeração de criadores proporcional à densidade criativa de nossa música. Em todo lugar e de todo tipo, temos ofertas de sons que inspiram o renascimento da música brasileira. Mas como alguns artistas ligados ao Ecad, se transformaram em pessoa/empresa, esse consenso minimalista se colocou como tutor de um único processo que lhes permite o comando das decisões.
Lógico que a desarmonia com o próprio meio, contrária à lei da natureza, é o pior dano que a injustiça nos impõe. A tendência é que as últimas montagens formais de arrecadação espoliando a própria sociedade, num fictício conceito de direito autoral, enfrente como sentença a ira da desta mesma sociedade. E isso, na verdade, será o capítulo seguinte.
Por tudo isso, parece uma enorme contradição criar injustiças para se fazer justiça, pois, a meu ver, é um fatalismo cínico, imobilizante criticamente desesperançoso em que se criminaliza não só a sociedade, mas uma inexorável multidão de criadores brasileiros para servir à receita exigida pelo Ecad.
Vale a pena, neste momento do fim da indústria fonográfica, refletir sobre uma outra ordem nos inspirando no grande fotógrado Sebastião Salgado:
“Quero mostrar-lhes agora, para encerrar, algumas fotos que para mim são muito importantes nesse sentido. Lembram-se de que contei a vocês, quando recebi a fazenda de meus pais que era meu paraíso, que era a fazenda. Terra completamente destruída, erosão, a terra tinha secado. Mas podem ver nesta foto, estávamos começando a construir um centro educacional que se tornou um centro ambiental muito grande no Brasil. Vocês veem muitos pontos úmidos nesta foto. Em cada um desses pontos, plantamos uma árvore. Há milhares de árvores. Agora vou mostrar-lhes as fotos feitas exatamente no mesmo local, dois meses atrás”.

Carlos Henrique Machado

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