SILVIO TENDLER PÕE AS CARTAS NA MESA

Nunca houve tantos recursos para a produção cinematográfica concentradas nas mãos do estado brasileiro como atualmente nas mãos da  Ancine, Agência nacional de Cinema. Estes recursos vêm de impostos e taxas arrecadados da mais diversas formas pela agência estatal.
Esta seria uma boa notícia se a repartição do bolo fosse democrática e não concentradora como ocorre atualmente.
A Ancine não tem mecanismos nem programas de democratização no uso de recursos; não tem projetos nem de formações nem de artistas, técnicos, espectadores ou platéias. A Ancine, hoje só viabiliza projetos de filmes para ricos. Só tem chances quem apresenta orçamentos caros e voltados “para o mercado”.
No atual sistema não se contabiliza espectadores, mas renda. O cidadão que gosta de cinema torna-se um ser invisível. Só é contabilizado se vier acompanhado com um ingresso, na maioria dos casos, emitido numa sala de shopping confundindo-se assim rápidamete o espectador com o “consummer” bem ao gosto das “majors”, distribuidoras estrangeiras que produzem filmes no Brasil com recursos nacionais oriundos das leis de incentivo fiscal determinando assim o que deve ser produzido no Brasil com nosso próprio dinheiro.
Assim é moldado o “gosto do público”. Quem vai a um shopping, comprar um tênis de marca, uma camisa de griffe e come um fast food sai completamente feliz com seu programa. Me disse um responsável pela produção do cinema brasileiro que filme para shopping é filme voltado para público infanto juvenil. Os outros tem pouquíssima chance.
Os  demais filmes, os que não correspondem ao formulário padrão, os espectadores que assistem filmes na laje, nos cineclubes não são contabilizados pela Agência de Estado tornam-se “Os Invisíveis”. Público e filmes são discriminados, marginalizados.
Quantificar os espectadores, valorizar os filmes, tecnologicamente não é complicado. Hoje temos estes mecanismos. Falta vontade política de ampliar a circulação dos filmes, a formação de criadores, ampliar a própria noção de espetáculo e espectador, tirando dos shoppings e levando para a periferia.
Esse é o nosso desafio, o de dar visibilidade aos invisíveis, filmes e espectadores e fazer a inclusão social ampliando e estendendo para a periferia os mecanismos de produção e difusão. Esse é o papel do Estado em uma democracia. Esse é o nosso desafio.
Silvio Tendler

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