A GRANDE LACUNA

Fazendo um balanço sobre o ano que se finda, somando-se aos anos passados de quase total abstinência do contato com o público, verifica-se o total desamparo a que chegou nossa cultura, a examinar o que a produção de meus semelhantes conseguiu atingir. Fatores alheios à nossa dedicação produtiva ou disposição de abrir parcerias com quem pudesse dinamiza-la, advindos da soma dos entraves na mecânica estabelecida via produção cultural, e fundamentalmente por estarmos inteiramente desvinculados da mídia ou patotas específicas de penetração nas intrincadas modalidades de captações de recursos, etc. não nos foi permitido objetivar nossos projetos, entre livros, filmes de longa metragem, peças de teatro, música etc. Ha uma escassez ou como que um impedimento a gestores voltados para o gerenciamento das artes periféricas distanciadas daquelas envolvidas com o modismo e o sucesso fácil, descartável, ao mesmo tempo que uma inoperante negligência política. Há uma lacuna gigantesca onde vegetam os artistas que não se encaixam nos escaninhos da descartabilidade, portadores do novo a dignificar nossa estirpe.

Para 14 conta-se com o inicio de um movimento que atraia os interessados a alavancar a cultura brasileira  esfacelada pelos caminhos. Os poucos que conseguem furar seu bloqueio comprovam, conquistando prêmios e glórias, enfrentando posteriormente as conseqüências de voltar a estaca zero e enfrentar novas epopéias. Chegou a hora de um movimento como aquele que fez surgir a Bossa Nova, o Cinema Novo o Teatro de Arena etc. articulados por um chamamento de socorro de nossa cultura e que se perpetuou pela importância em revelar os verdadeiros talentos da época, impondo nossos valores através das artes identificadas com o espírito verdadeiro de nossa gente, escondidos pelas grades de um sistema nada interessado em sua fisionomia transformadora, impondo o modelo vigente a deteriorar nossos verdadeiros valores culturais. Somados a um partido político descomprometido com os ditames do sistema, ter-se-ia condições de deflagrar esta revolução, atraindo uma parcela dos investidores e abrindo uma frente, a começar pelas restruturações das leis de incentivo e levantando a bandeira da recuperação cultural do país. A lacuna deixada em aberto, impedindo o fechamento do círculo de várias e preciosas conquistas, foi a lacuna cultural.  A cultura é a alma da pátria. É o verdadeiro instrumento a revelar as mazelas e os valores de nossa gente, com poderes de envolver a identidade e a personalidade do povo nas lutas necessárias para o seu crescimento. O Brasil está semi-imbecilizado, envolto no falso amálgama de um processo decadente dos valores fundamentais e orgânicos de uma natureza que vai perdendo sua exuberância em detrimento dos falsos valores que lhe são impostos. Há que se abrir o ciclo da retomada da cultura, sob pena de deterioração por completo de nossa cidadania. Já não se sabe mais quem somos. Só a cultura nos devolverá a verdadeira identidade. Nós, os artistas, por nos considerarmos umas verdadeiras toupeiras como produtores, em quase a sua totalidade, sem o menor talento para administrar a comercialização de nossos produtos, estamos  à mercê de uma possível  parceria com quem se disponha a assumir este papel, abrindo um atalho por esta selva, empunhando a tocha com a chama de nosso verdadeiro destino, a exemplo dos países civilizados que preservam a intactilidade em seu patrimônio cultural. Quem se habilita!

Feliz ano novo.
Sergio Ricardo

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4 respostas em “A GRANDE LACUNA

  1. Pingback: A GRANDE LACUNA | gritabr

  2. Pois é, amigo. Eu imaginei que fosse viver do meu ofício e morrer trabalhando, porque o artista não se aposenta nunca, vive de criar. Tenho tantos trabalhos inéditos, peças de teatro, roteiros de filmes, letras com grandes parceiros… Mas pelo andar da carruagem vão continuar inéditos .Se não fosse minha família eu já estaria vivendo da caridade pública .

  3. Grande Sérgio ! Assino & Dou fé no que dizes. A Rede é uma ferramenta importante dessa nova reunião da ‘classe cultural brasileira , só que agora diretamente ligada ao público. Novas ferramentas estão surgindo, e é preciso estarmos abertos , como vc vem fazendo, para nos unirmos em prol de nossa rica e vasta cultura.
    O Programa Cultura Viva, do Minc implantado na época do Gil, pelo querido Célio Turino é um grande exemplo do caminho que nossas políticas públicas podem tomar. Valorizar o Brasil de dentro pra fora. Estamos juntos nessa ! Grande abraço e feliz 2014, do fã e parceiro musical, Diego Britto

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