VERDADES QUE SE MISTURAM

Carta aberta aos Exmos. Juízes do STF

Excelências

Assisti com profundo interesse a todos os depoentes sobre o Direito Autoral no STF. Mesmo aos discursos dos opositores à lei em questão, com isenção, para tentar absorver suas razões. Aos olhos dos leigos talvez tenha chegado, dada às enfáticas, embasadas e elaboradas revelações, uma coerência tal, que até eu, com exagerada postura imparcial, cheguei, em momentos, a achar que estavam cobertos de razão. E disse de mim para mim mesmo, esfregando lentamente o polegar no meu lábio inferior como quem suspeita de pisada na bola:
— Pô, cara, você esteve enganado durante tantos anos! Que vergonha! Desceu a lenha nesses caras em entrevistas, declarações, botou a mão no fogo por uma classe tão desunida, equivocada, alienada… De repente minha mão parou, a comprimir meu lábio contra o canino e fui levado inconscientemente ao quintal de minha infância onde, encantado com a calcinha cor de rosa que ia e vinha entre as pernas da menina que eu empurrava no balanço, até que, hipnotizado, deixava de me preparar para segura-lo e dar novo impulso. Mas acabei recebendo de seu acento uma traulitada pela cara indo parar no chão com a boca ensanguentada. Larguei meu lábio que passou a vida a me deixar a boca meio torta e segui assistindo os depoentes.

Felizmente lá estavam nossos heróis, Frejat, Jandira, Paula Lavigne, Aderbal Freire e tantos outros aliados, dentro e fora do governo, reconduzindo-me à nossa realidade. Alguns, com discursos fundamentados com estatísticas, leis, critérios e dados, outros em inflamado desabafo sobre as deformações e fatos do sistema de arrecadação, recompondo antigos argumentos jogados às baratas pelo conformismo de alguns artistas mal acostumados com o abandono. Foram arrancadas das vísceras as razões do descaso. Emocionado, novamente fui levado ao mesmo quintal, trepado na goiabeira a arrancar um galho seco, com o qual entalhei a canivete uma caneta tinteiro, como tarefa de trabalhos manuais, dever de casa com o qual chegava todo orgulhoso à sala de aula. Os garotos correram para vê-lo, todos espantados, para minha surpresa, com a beleza da caneta, até a chegada da professora que privilegiou vários trabalhos inferiores ao meu e por fim sentenciou que eu recebera zero por ter levado um trabalho feito por “mão de gato”. Argumentou, para meu espanto, que não era possível a um menino fazer aquele entalhe e que só um artista poderia forja-lo a canivete e transforma-lo em uma pena de pássaro. Fiquei pasmo e ofendido e não houve argumento que a convencesse. Levei meu Zero e ela, minha pena de pássaro.

Data vênia. Que as autoridades, ao assinarem a rejeição ou a aprovação da lei, tomem emprestado daquela “ECADiana”, a caneta surrupiada, para inspirarem-se, ao deixarem escritos vossos nomes na história de nossa cultura, e que nos seja devolvida a pena de pássaro esculpida no galho da goiabeira de nossa verdade desprezada, para não passarmos o resto da vida, forçando um sorriso de boca torta.

Respeitosamente.
Sergio Ricardo.

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Uma resposta em “VERDADES QUE SE MISTURAM

  1. A questão é muito complexa e todos os lados tem interesses econômicos, é óbvio. Precisamos de muita clareza sobre tudo o que envolve cada posicionamento . Mas você escreve tão bonito, parceiro, que é mais fácil ser convencida por você do que por qualquer outra pessoa. Beijos.

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