NOSSA MÚSICA, NOSSA SOCIEDADE

Parece mesmo que, após um longo vapor saído das chaminés da indústria fonográfica, a nossa música perdeu a ressonância plena, aquele dissonante sentido engajado com o futuro do homem brasileiro parece não mais existir dando a entender que nos vemos à distância, em tarefas separadas, músicos e sociedade. Mas de qualquer modo temos que compreender a profundidade do momento em que vive o músico brasileiro.

É evidente que há uma solidão, mas é também evidente que há uma corrupção interior, algo secreto, porque hoje sentimos que a nossa música não alivia os nossos corações. Sem perceber estamos buscando métodos consoladores como direito à felicidade, um escandaloso afrouxamento dos nossos sentimentos, digo, os mais nobres sentimentos, não aqueles que imitam o poder dominante, não aqueles que acreditam em uma classe que se considera superior para estabelecer e expandir o seu domínio sobre a outra, como bem disse Nietzsche.

Estamos confundindo finalidade com castigo; emergência do direito com conquista efetiva de privilégios. Ocorre que a música faz parte do mundo orgânico e não há um novo uso, uma nova finalidade que suplante as características legíveis da história de um povo. Isto é contra a natureza do homem e, consequentemente da música. Nenhum cálculo feito por antecipação negando a fonte e se transformando num verdadeiro instrumento de vingança contra a sociedade, nos redimirá. A sedução é muita, justamente porque certos valores que antes eram nossos objetivos, ficam ocultos, e o universo que reflete a nossa verdade, fica restrito à nossa declaração de guerra em prol de “nossos direitos”. Isso é o que se pode chamar de oposição trágica, de uma infelicidade que supõe que o inverso dos conceitos pela força dos meios, nos levará a uma posição de certezas palpáveis.

Villa Lobos, com muita propriedade e quase como um grito de amor ao Brasil, disse: “O verdadeiro ideal do artista é servir à massa do povo”.

Um dos elementos mais característicos da nossa música é a sua vinculação às formas mais expressivas pinceladas pela amplidão do próprio movimento do universo brasileiro. O movimento do riacho, do mar, dos homens, a diferença na concentração interior do cantor, do compositor, do instrumentista para que tudo se transforme em formas externas de aparência com o nosso chão. Mas isso parece ter perdido posição na guerra de energias que não mais é avaliada por pensamentos, mas decididas por tribunais.

Enquanto os sons mais fortes escapam das gargantas de um universo de vozes cantadas num ritual brasileiro absolutamente derivado das cerimônias do nosso povo, erroneamente por uma estranha descoberta, nos despedimos do nosso próprio coração para rasparmos direitos numa longa cerimônia oficiante carregada de superintendentes e administradores nos quais acabamos nos transformando.

A nossa música sempre se pareceu com a vida comum do povo brasileiro. A visão que nos dificulta enxergar este momento, porque não somos mais os protagonistas específicos e sequenciados pela escolha da indústria, roubou o nosso fogo, a nossa alma. É como se estivéssemos sendo conduzidos por um rei louco que fala uma língua fictícia, mas que na sequência, mesmo nos mantendo distantes de nós mesmos, trabalha para nos dar condiçṍes especiais diante de qualquer outro grupo social.

Os tempos são outros, e isso estimula reações nervosas ou a prática do silêncio acovardado. O que precisamos é realmente recordar que a música do Brasil nunca se escondeu nos bastidores durante os cinco séculos de existência. Sua importância revela-se no corpo da sociedade. E é desta criação, desta linguagem, dos inúmeros hábitos que misturam pessoas de uma língua comum ao Brasil que construímos um palco extraído dos próprios movimentos da sociedade, aonde adquirimos toda a técnica de compor, de tocar e de cantar e de nos libertar de um único poder que nos condicionou a controlar, mas que jamais poderá ultrapassar com seus artifícios a beleza natural que certamente deve nos bastar para sermos felizes com a nossa música.

Carlos Henrique Machado Freitas
Compositor, arranjador e bandolinista. Colaborador assíduo do GRITA.

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